Original
Vol. 18 Núm. 1 (2026)
41 min
Depressão, ansiedade e desempenho cognitivo em adultos mais velhos: estudo comparativo entre contextos
Depresión, ansiedad y desempeño cognitivo en adultos mayores: estudio comparativo entre contextos
1 Departamento de Psicologia, Universidade Estadual Paulista – Unesp, Assis, São Paulo, Brasil
2 Laboratório de Neurociência Cognitiva – LaNeC, Universidade Estadual Paulista – UNESP, Marília, São Paulo, Brasil
Publicación:
06/07/2026
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Introdução
O envelhecimento populacional é um fenômeno global e inevitável que tem despertado crescente interesse científico, particularmente devido ao seu impacto nas funções cognitivas, como memória de trabalho (Klencklen et al., 2017; Balagué-Marmaña et al., 2025) e atenção (Balz & Boerner, 2025), bem como nos aspectos emocionais, incluindo o surgimento de transtornos depressivos (Mitina, Young & Zhavoronkov, 2020; Tsimpida & Tsakiridi, 2025; Bozkurt-Duman et al., 2026) e ansiosos (Commodari & Guarnera, 2008; Javaid et al., 2023). À medida que a expectativa de vida aumenta, observa-se também um crescimento na prevalência de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer (Major et al., 2026), as quais comprometem progressivamente a autonomia e a qualidade de vida (Deary et al., 2009; Livingston et al., 2020; Van Schependom & D’haeseleer, 2023). Nesse cenário, compreender os fatores que modulam a reserva cognitiva e emocional em adultos mais velhos torna-se essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de prevenção e intervenção (Stern et al., 2020; Pinto et al., 2025; Mendoza-Ruvalcaba et al., 2026).
Ao longo das últimas décadas, diversos estudos demonstram que o ambiente social e as experiências emocionais desempenham um papel crítico na plasticidade cerebral e na cognição ao longo do ciclo vital (LeDoux, 1989; Fratiglioni, Paillard-Borg & Winblad, 2004; Cacioppo & Hawkley, 2009; Udeh-Momoh et al., 2025; Singer, 2025). Em particular, o isolamento social tem sido associado a alterações neurobiológicas relevantes (Bzdok & Dunbar, 2020; Tomova et al., 2020), incluindo mudanças na função do hipocampo (Shen et al., 2022; Wisłowska-Stanek et al., 2023) e aumento de marcadores inflamatórios (Alshammari et al., 2020; Matthews et al., 2024). Tais alterações podem comprometer processos cognitivos fundamentais, como memória e atenção, além de afetar o processamento emocional, aumentando a vulnerabilidade ao declínio cognitivo e à depressão, especialmente entre adultos mais velhos institucionalizados (Wilson et al., 2007; Shankar et al., 2013; Miao et al., 2025).
Por outro lado, evidências consistentes indicam que experiências ambientais enriquecedoras — caracterizadas por estímulos cognitivos, sociais e afetivos — exercem efeitos neuroprotetores significativos, tanto em modelos animais quanto em humanos (Kempermann et al., 2010; Mora et al., 2019; Soares et al., 2025). O engajamento em atividades significativas, como música, aprendizado e interações sociais, pode favorecer processos de neurogênese e sinaptogênese, contribuindo para o aumento da reserva cognitiva e para a manutenção do bem-estar emocional ao longo do envelhecimento (Särkämö et al., 2014; Herholz & Zatorre, 2012; Ihle et al., 2022; Caglar, Tutar & Biyikli, 2025). Esses achados reforçam a noção de que o envelhecimento não constitui um processo homogêneo, sendo fortemente influenciado pelas condições ambientais e pelo nível de estimulação ao qual o indivíduo está exposto. Apesar desses avanços, persiste uma lacuna relevante na literatura no que se refere à compreensão integrada das dimensões cognitivas, emocionais e sociais em diferentes contextos de envelhecimento, particularmente na comparação entre adultos mais velhos institucionalizados e não institucionalizados. Evidências anteriores sugerem que a institucionalização pode estar associada a maior prevalência de sintomas depressivos e a um declínio cognitivo mais acentuado, possivelmente em decorrência da redução de estímulos ambientais, sociais e afetivos (Drageset et al., 2011; Paúl et al., 2012). Em contrapartida, fatores como apoio familiar, engajamento em atividades socioculturais e maior autonomia funcional podem atuar como elementos protetores, modulando positivamente esses desfechos (Cacioppo et al., 2015; Camacho-Conde & Galán-López, 2020; Ferreira et al., 2020; Cano et al., 2024).
Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo investigar as relações entre desempenho cognitivo, sintomas depressivos, ansiedade e status de institucionalização em adultos mais velhos. Especificamente, buscou-se: (1) comparar os escores em instrumentos de avaliação cognitiva e afetiva entre adultos mais velhos institucionalizados e não institucionalizados; (2) examinar as correlações entre sintomas depressivos, níveis de ansiedade e desempenho cognitivo; e (3) analisar possíveis associações entre variáveis sociodemográficas e emocionais.
A hipótese central do estudo é que adultos mais velhos institucionalizados apresentariam níveis mais elevados de sintomas depressivos e de ansiedade, bem como menor desempenho cognitivo, em comparação com adultos mais velhos não institucionalizados. Adicionalmente, espera-se observar correlações negativas entre sintomas afetivos (depressão e ansiedade) e desempenho em tarefas cognitivas, refletindo a interação entre processos emocionais e cognitivos no envelhecimento.
Por fim, a compreensão dessas interações pode contribuir para a identificação de marcadores psicossociais relevantes e para o desenvolvimento de intervenções baseadas em evidências voltadas à promoção da saúde mental e cognitiva em populações idosas, tanto em contextos comunitários quanto institucionais.
Métodos
Esta pesquisa é caracterizada como um estudo observacional, transversal e comparativo entre grupos. A amostra consistiu em adultos mais velhos institucionalizados e não institucionalizados com 60 anos ou mais, de ambos os sexos.
Foram excluídos indivíduos com diagnóstico prévio de demência, transtornos neurológicos graves ou que utilizassem medicamentos com potencial de comprometer o desempenho cognitivo. Os participantes institucionalizados eram residentes de três instituições de longa permanência para idosos com características assistenciais semelhantes. Os participantes não institucionalizados eram idosos da comunidade matriculados em dois programas: (1) Universidade Aberta à Terceira Idade (UNATI), promovida por uma universidade pública do interior do estado de São Paulo - Brasil, cujos participantes frequentam atividades como palestras e oficinas (cinema, teatro, literatura e memória), e (2) Centro Dia, serviço público municipal que oferece atividades sociais, educativas e de lazer.
A amostra final (n = 81) foi selecionada a partir de uma população inicial de 209 idosos, com base em critérios de inclusão (participação voluntária e preservação de habilidades físicas e cognitivas suficientes para responder aos testes) e exclusão (recusa em participar ou presença de déficits que impedissem a avaliação). A distribuição dos participantes encontra-se apresentada na Tabela 1.
Instrumentos de coleta de dados
Os dados foram coletados utilizando instrumentos clínicos, cognitivos e psicométricos validados, com o objetivo de avaliar aspectos sociodemográficos, cognitivos e emocionais.
A entrevista clínica e exame psicológico permitiram a coleta de informações sociodemográficas (idade, sexo, local de nascimento, tempo de institucionalização, estado civil, ocupação, número de filhos e frequência de visitas), obtidas por meio de entrevistas com participantes, equipe institucional e registros. A avaliação da saúde geral (visão, audição, linguagem, humor, funcionalidade e histórico de acidente vascular cerebral) foi realizada por entrevista direta e observação sistemática.
A triagem cognitiva foi realizada por meio do Mini-Exame do Estado Mental (MMSE) (Folstein, Folstein & McHugh, 1975; Bertolucci et al., 1994), com pontos de corte ajustados à escolaridade (Almeida, 1998), e por subtestes do WAIS-III (Wechsler, 1997; Nascimento, 1998): Raciocínio com Matrizes, Busca de Símbolos, Cubos e Dígitos.
A avaliação emocional incluiu o Inventário de Depressão de Beck (BDI-II) (Beck et al., 1961; Beck, Steer & Brown, 2012; Gorenstein & Andrade, 1998; Jackson-Koku, 2016), a Escala de Depressão Geriátrica (GDS-30) (Yesavage et al., 1983) e o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE-C) (Spielberger, Gorsuch & Lushene, 1970).
Para fins analíticos, foi construída uma variável composta denominada ‘desempenho cognitivo’, a partir da padronização (z-scores) dos escores do MMSE e dos subtestes do WAIS-III, seguida do cálculo da média dos escores padronizados, permitindo a integração de múltiplos domínios cognitivos em um índice global.
Procedimentos
As avaliações foram conduzidas individualmente, em sessões com duração aproximada de 45 a 60 minutos, em ambiente adequado. A aplicação seguiu ordem padronizada: entrevista clínica, instrumentos cognitivos e escalas emocionais. Observações comportamentais relevantes foram registradas, e os avaliadores foram previamente treinados para garantir a padronização.
Análise estatística
Os dados foram descritos por meio de frequências, medidas de tendência central e dispersão. A normalidade foi testada pelo teste de Shapiro–Wilk. Para comparações entre grupos, foram utilizados o teste t para amostras independentes ou o teste de Mann–Whitney, conforme a distribuição.
Considerações éticas
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Marília (Parecer nº 225.783/2013), conforme a Declaração de Helsinque e a Resolução nº 466/2012.
Resultados
Características da amostra
A amostra foi composta por 81 idosos, sendo 34 institucionalizados e 47 não institucionalizados. Observou-se que os participantes institucionalizados apresentaram, em média, menor escolaridade e piores indicadores socioeconômicos em comparação aos não institucionalizados. Essas diferenças contextuais são relevantes para a interpretação dos resultados, considerando seu potencial impacto sobre a reserva cognitiva e o desempenho neuropsicológico.
No que se refere ao desempenho cognitivo, os idosos institucionalizados apresentaram escores significativamente inferiores em todas as medidas avaliadas, incluindo o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) (22,1 ± 3,8 vs. 25,3 ± 3,2; p = 0.01) e os subtestes da WAIS-III: Matrizes (12,8 ± 3,1 vs. 15,2 ± 2,9; p = 0.01), Símbolos (23,4 ± 4,5 vs. 27,8 ± 3,9; p = 0.01), Cubos (9,8 ± 2,6 vs. 12,1 ± 2,4; p = 0.02) e Dígitos (10,5 ± 2,1 vs. 12,9 ± 2,3; p = 0.01).
As características sociodemográficas e cognitivas da amostra estão apresentadas na Tabela 1.
| Variável | Institucionalizados (n = 34) | Não institucionalizados (n = 47) | p |
|---|---|---|---|
| Idade (média ± DP) | 77,2 ± 6,5 | 73,1 ± 5,8 | 0,002* |
| 52,9% | 27,7% | 0,002* | |
| Sexo feminino (%) | 64,7% | 61,7% | 0,78 |
| MMSE | 22,1 ± 3,8 | 25,3 ± 3,2 | 0,01* |
| Matrizes | 12,8 ± 3,1 | 15,2 ± 2,9 | 0,01* |
| Símbolos | 23,4 ± 4,5 | 27,8 ± 3,9 | 0,01* |
| Cubos | 9,8 ± 2,6 | 12,1 ± 2,4 | 0,02* |
| Dígitos | 10,5 ± 2,1 | 12,9 ± 2,3 | 0,01* |
Desempenho cognitivo
Vinte participantes (24,7%) apresentaram indicativos de declínio cognitivo, sendo essa condição mais frequente entre indivíduos com idade mais avançada. Observou-se ainda que os escores do MEEM apresentaram correlações positivas fortes com os subtestes da WAIS-III (r variando entre 0,60 e 0,90; p < 0,001), indicando elevada convergência entre as medidas de desempenho cognitivo global e funções específicas. De modo consistente, os subtestes da WAIS-III evidenciaram redução de desempenho com o aumento da idade. Adicionalmente, os participantes institucionalizados apresentaram escores significativamente mais baixos em todos os subtestes avaliados (p < 0.05), reforçando a presença de comprometimento mais acentuado em funções cognitivas globais e executivas nesse grupo.
Sintomas emocionais
Em relação aos aspectos emocionais, os idosos institucionalizados apresentaram níveis significativamente mais elevados de sintomas depressivos e ansiosos, conforme mensurado pelo BDI-II, GDS-30 e IDATE-C/STAI. Esse padrão sugere maior vulnerabilidade emocional nesse grupo, possivelmente associada a fatores como isolamento social, menor autonomia e redução de estímulos ambientais.
As análises indicaram correlações negativas entre ansiedade e desempenho cognitivo (r variando de –0,30 a –0,60; p < 0,05), bem como entre sintomas depressivos e desempenho cognitivo (r variando de –0,30 a –0,60; p < 0,01). Esses resultados indicam que maiores níveis de sofrimento emocional estão associados a pior desempenho em tarefas cognitivas.
Relações entre cognição e emoção
A análise das inter-relações entre variáveis cognitivas e emocionais está apresentada na Tabela 2. Foram observadas correlações positivas fortes entre o MEEM e os subtestes da WAIS-III, com coeficientes variando entre 0,65 e 0,75 (p < 0,001), reforçando a consistência interna das medidas cognitivas.
Por outro lado, sintomas depressivos e ansiosos apresentaram correlações negativas com o desempenho cognitivo. Especificamente, o BDI-II correlacionou-se negativamente com todas as medidas cognitivas (r entre –0,45 e –0,52; p < 0,01), enquanto a GDS-30 apresentou correlações negativas ligeiramente mais elevadas (r entre –0,49 e –0,56; p < 0,01). O IDATE-C também apresentou associações negativas com o desempenho cognitivo (r entre –0,40 e –0,60; p < 0,05).
| Variáveis | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. MMSE | — | |||||||
| 2. Matrizes | 0,75*** | — | ||||||
| 3. Símbolos | 0,70*** | 0,68*** | — | |||||
| 4. Cubos | 0,72*** | 0,74*** | 0,66*** | — | ||||
| 5. Dígitos | 0,65*** | 0,69*** | 0,71*** | 0,67*** | — | |||
| 6. BDI-II | –0,45** | –0,50** | –0,48** | –0,52** | –0,46** | — | ||
| 7. GDS-30 | –0,50** | –0,55** | –0,52** | –0,56** | –0,49** | 0,72*** | — | |
| 8. IDATE-C | –0,40* | –0,45** | –0,42* | –0,48** | –0,60** | 0,65*** | 0,68*** | — |
Adicionalmente, observou-se forte correlação positiva entre as medidas emocionais, com coeficientes elevados entre BDI-II e GDS-30 (r = 0,72; p < 0,001), BDI-II e IDATE-C (r = 0,65; p < 0,001) e entre GDS-30 e IDATE-C (r = 0,68; p < 0,001), indicando elevada coocorrência entre sintomas depressivos e ansiosos.
Síntese dos achados principais
De forma integrada, os resultados indicam três padrões principais: (i) pior desempenho cognitivo em idosos institucionalizados; (ii) maior carga de sintomas depressivos e ansiosos nesse grupo e, (iii) associação consistente entre pior desempenho cognitivo e maior sofrimento emocional.
Discussão
Os achados deste estudo indicam um padrão consistente de associação entre vulnerabilidade cognitiva e emocional no envelhecimento, particularmente em contextos de institucionalização. A associação observada entre idade avançada e institucionalização sugere que indivíduos mais longevos tendem a demandar maior suporte assistencial, o que pode refletir tanto maior carga de comorbidades quanto diferenças acumuladas ao longo da vida em termos de estimulação cognitiva, engajamento social e oportunidades educacionais. Esse padrão é consistente com a literatura que descreve o envelhecimento como um processo heterogêneo, fortemente influenciado por fatores ambientais e psicossociais (Livingston et al., 2020; Stern et al., 2020; Udeh-Momoh et al., 2025).
No domínio cognitivo, a forte associação entre os escores do Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) e os subtestes do WAIS-III reforça a validade do MMSE como indicador global de funcionamento cognitivo, ao mesmo tempo em que evidencia a interdependência entre diferentes domínios cognitivos. Modelos clássicos da memória de trabalho e do controle executivo sugerem que funções como atenção, memória de trabalho e raciocínio abstrato operam de forma integrada, sendo particularmente sensíveis ao envelhecimento (Baddeley & Hitch, 1974; Baddeley, 2000, 2003; Salthouse & Babcock, 1991; Treacy et al., 2026). Assim, o declínio cognitivo observado deve ser compreendido como um fenômeno sistêmico, envolvendo múltiplos processos inter-relacionados, e não como déficits isolados.
Um aspecto central para a interpretação dos resultados refere-se ao papel da reserva cognitiva. Os dados sugerem que indivíduos inseridos em contextos mais estimulantes apresentaram melhor desempenho cognitivo, o que é consistente com evidências que indicam que experiências ao longo da vida — como escolaridade, engajamento social e atividades cognitivamente desafiadoras — contribuem para maior resiliência frente ao declínio cognitivo (Stern et al., 2020; Mendoza-Ruvalcaba et al., 2026; Pinto et al., 2025). Nesse sentido, a distinção entre participantes provenientes da Universidade Aberta à Terceira Idade (UNATI) e aqueles do Centro Dia revela-se particularmente relevante. Enquanto os participantes da UNATI apresentavam maior escolaridade e melhor nível socioeconômico, favorecendo maior
reserva cognitiva, os participantes do Centro Dia, com menor escolaridade e menor acesso a recursos, possivelmente apresentam maior vulnerabilidade cognitiva. Esse contraste evidencia que o envelhecimento não pode ser analisado de forma homogênea, devendo-se considerar as desigualdades sociais como determinantes importantes do funcionamento cognitivo na velhice (Lenehan et al., 2015; Ihle et al., 2022).
No que se refere aos aspectos emocionais, os achados indicam que sintomas de ansiedade e depressão estão associados a pior desempenho cognitivo, corroborando estudos que demonstram a interferência de estados emocionais negativos em processos cognitivos centrais (Christopher & MacDonald, 2005; Moran, 2016; Li et al., 2025). A ansiedade, em particular, pode comprometer a alocação de recursos atencionais e a memória de trabalho, possivelmente devido à sobrecarga cognitiva associada à hiperativação emocional. Já a depressão parece exercer um impacto mais difuso, afetando motivação, velocidade de processamento e eficiência cognitiva global (Songco et al., 2023).
A forte associação entre sintomas depressivos e ansiosos observada neste estudo reforça a natureza interdependente dos processos emocionais no envelhecimento. Evidências indicam que essas condições frequentemente coexistem e compartilham mecanismos neurocognitivos comuns, potencializando seus efeitos sobre o funcionamento cognitivo (Mitina et al., 2020; Javaid et al., 2023). Nesse sentido, os resultados sugerem que a relação entre cognição e emoção deve ser compreendida como bidirecional e dinâmica, em consonância com modelos que enfatizam a integração entre sistemas cognitivos e emocionais no cérebro (LeDoux, 1989).
Outro aspecto relevante diz respeito ao papel do contexto social. A institucionalização, frequentemente associada à redução de estímulos cognitivos e sociais, parece atuar como fator de risco adicional para o declínio cognitivo e emocional. Estudos demonstram que o isolamento social está relacionado a alterações neurobiológicas, incluindo mudanças no funcionamento do hipocampo e aumento de processos inflamatórios, que podem impactar diretamente a cognição (Bzdok & Dunbar, 2020; Shen et al., 2022; Matthews et al., 2024). Além disso, a solidão e a redução do engajamento social têm sido associadas a maior risco de declínio cognitivo e demência (Wilson et al., 2007; Shankar et al., 2013; Miao et al., 2025).
Por outro lado, ambientes enriquecidos, caracterizados por maior estimulação cognitiva, social e afetiva, têm sido associados a efeitos neuroprotetores significativos. Evidências indicam que tais ambientes podem promover plasticidade neural, incluindo processos de neurogênese e sinaptogênese, contribuindo para a manutenção das funções cognitivas ao longo do envelhecimento (Kempermann et al., 2010; Mora et al., 2019; Soares et al., 2025; Caglar et al., 2025). Esses achados reforçam a importância do ambiente como modulador central da trajetória do envelhecimento cognitivo e emocional.
De forma integrada, os resultados deste estudo indicam que cognição, emoção e contexto social constituem dimensões profundamente interdependentes no envelhecimento. A análise das correlações entre os instrumentos evidencia que alterações em um domínio tendem a repercutir nos demais, sustentando a necessidade de abordagens teóricas que considerem o envelhecimento como um processo multifatorial. Essa perspectiva amplia a compreensão tradicional do declínio cognitivo, incorporando fatores psicossociais e ambientais como elementos centrais na explicação das diferenças individuais no envelhecimento.
Esses achados reforçam a necessidade de abordagens integradas que abordem simultaneamente a regulação emocional e a estimulação cognitiva, particularmente em populações idosas socialmente vulneráveis.
Limitações
Este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas. O delineamento transversal impede a inferência de relações causais entre variáveis cognitivas e emocionais. Além disso, a amostra não probabilística limita a generalização dos achados.
Destaca-se, ainda, a heterogeneidade do grupo não institucionalizado, particularmente a diferença entre participantes da UNATI e do Centro Dia. Enquanto os primeiros apresentam maior escolaridade e nível socioeconômico, os segundos representam um perfil mais vulnerável. Essa diferença pode ter influenciado os resultados, especialmente no que se refere à reserva cognitiva, devendo ser considerada em estudos futuros com delineamentos mais controlados.
Conclusão
Os achados deste estudo indicam que o funcionamento cognitivo em adultos mais velhos resulta de uma complexa interação entre idade, estado emocional e contexto social. A institucionalização e a presença de sintomas depressivos e ansiosos mostraram-se associadas a pior desempenho cognitivo, enquanto contextos caracterizados por maior estimulação cognitiva e social estiveram relacionados a melhor funcionamento cognitivo.
Esses resultados reforçam a compreensão do envelhecimento como um processo multifatorial, no qual fatores cognitivos, emocionais e ambientais interagem de maneira dinâmica. A consideração dessas dimensões é fundamental para o avanço do conhecimento na área e para o desenvolvimento de abordagens mais abrangentes no estudo do envelhecimento.
Financiamento
Não foi recebido financiamento para a realização da pesquisa, autoria e/ou publicação deste artigo.
Conflito de interesses
Os autores declaram não haver conflitos de interesse comerciais, financeiros ou pessoais relacionados à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.
Uso de inteligência artificial
Não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial na redação, análise, interpretação ou revisão deste artigo.
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Dépression, anxiété et performances cognitives chez les personnes âgées : étude comparative selon le contexte
Résumé
Cette étude a examiné la relation entre les performances cognitives, les symptômes dépressifs et l’anxiété chez des personnes âgées institutionnalisées et non institutionnalisées, en mettant l’accent sur l’interaction entre les facteurs émotionnels et les processus cognitifs. Une étude transversale a été menée auprès de 81 personnes âgées de Marília, au Brésil, dont 34 étaient institutionnalisées et 47 non institutionnalisées. Les performances cognitives ont été évaluées à l’aide du Mini-Mental State Examination (MMSE) et de sous-tests du WAIS-III, tandis que les symptômes émotionnels ont été mesurés à l’aide du Beck Depression Inventory-II (BDI-II), de la Geriatric Depression Scale (GDS-30) et du State-Trait Anxiety Inventory (IDATE-C/STAI). Les participants institutionnalisés ont présenté des performances cognitives significativement plus faibles et des niveaux plus élevés de détresse émotionnelle. De fortes corrélations positives ont été observées entre le MMSE et les sous-tests du WAIS-III (r = 0,60–0,90), ainsi que des corrélations négatives entre les symptômes dépressifs et anxieux et les performances cognitives. Une forte cooccurrence entre la dépression et l’anxiété a également été mise en évidence (r > 0,60). Ces résultats soulignent l’interaction entre les processus émotionnels et cognitifs au cours du vieillissement, ainsi que le rôle du contexte environnemental et social dans la réserve cognitive.
Mots-clés: Vieillissement. Performances cognitives. Dépression. Anxiété. Réserve cognitive.
Depression, Anxiety, and Cognitive Performance in Older Adults: A Comparative Study Across Contexts
Abstract
This study examined the relationship between cognitive performance, depressive symptoms, and anxiety in institutionalized and non-institutionalized older adults, focusing on the interaction between emotional factors and cognitive processes. A cross-sectional study was conducted with 81 older adults from Marília, Brazil, including 34 institutionalized and 47 non-institutionalized participants. Cognitive performance was assessed using the Mini-Mental State Examination (MMSE) and WAIS-III subtests, while emotional symptoms were measured using the Beck Depression Inventory-II (BDI-II), the Geriatric Depression Scale (GDS-30), and the State-Trait Anxiety Inventory (STAI). Institutionalized participants showed significantly lower cognitive performance and higher levels of emotional distress. Strong positive correlations were observed between the MMSE and WAIS-III subtests (r = 0.60–0.90), as well as negative correlations between depressive and anxiety symptoms and cognitive performance. A strong co-occurrence between depression and anxiety was also identified (r > 0.60). These findings highlight the interaction between emotional and cognitive processes in aging and underscore the role of the environmental and social context in cognitive reserve.
Keywords: Aging. Cognitive performance. Depression. Anxiety. Cognitive reserve.
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