Original

Vol. 18 Núm. 1 (2026)

62 min

Aspectos cognitivos pós-cirúrgicos na lesão encefálica adquirida: viabilidade da Bateria Breve de Rastreio Cognitivo

Aspectos cognitivos posquirúrgicos en la lesión cerebral adquirida: viabilidad de la Batería Breve de Cribado Cognitivo

Carolina Veras1*, Evelynne S. Rieffel1, Danielle S. de Oliveira1, Samara R. dos Santos1, Juliana B. de Oliveira1, Bruno A. Côrtes2, César F. Filho2, Márcio B. Matias2, Helenice Charchat-Fichman2
1 Departamento de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
2 Serviço de Neurocirurgia - Hospital Municipal Souza Aguiar, Rio de Janeiro, Brasil
https://doi.org/10.5579/rnl.v18.n1.001
Publicación:
06/07/2026


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Resumen (PT)

Lesões encefálicas adquiridas (LEA) causam déficits cognitivos significativos, afetando a qualidade de vida e a recuperação funcional dos pacientes. A avaliação cognitiva pós-cirúrgica é frequentemente negligenciada, especialmente em países em desenvolvimento. Este estudo buscou descrever o perfil neuropsicológico de pacientes com LEA após a cirurgia e avaliar a viabilidade clínica da Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC) em consultas ambulatoriais. Foram avaliados 80 participantes, sendo 48 pacientes com LEA e 32 controles, em um ambulatório de neurocirurgia. Os participantes realizaram o Miniexame do Estado Mental (MEEM) e a BBRC, que inclui o Teste do Desenho do Relógio (TDR), o Teste de Fluência Verbal (TFV) e o Teste de Memória de Figuras (TMF). Foram realizadas análises descritivas e inferenciais, incluindo o teste U de Mann-Whitney e correlações de Spearman. A amostra foi estratificada por idade, nível de escolaridade e diagnóstico, incluindo lesões cerebrovasculares, traumatismo cranioencefálico e tumores cerebrais. Os pacientes com LEA apresentaram desempenho cognitivo significativamente inferior ao dos controles, com déficits em seis dos oito subtestes da BBRC e no MEEM. Os maiores prejuízos foram observados na memória episódica (TMF) e nas funções executivas e visuoespaciais (TDR). A nomeação e a fluência verbal mantiveram-se dentro da média, sugerindo preservação parcial das funções linguísticas. A idade correlacionou-se negativamente com o MEEM e o TMF, enquanto a escolaridade se correlacionou positivamente com o MEEM e o TDR. Não foram encontradas associações significativas entre as queixas subjetivas de memória e o desempenho cognitivo, exceto no teste de fluência verbal. Os pacientes com LEA apresentaram déficits cognitivos em múltiplos domínios, especialmente na memória e nas funções executivas. A BBRC mostrou-se uma ferramenta viável para o rastreio cognitivo ambulatorial. O estudo destaca a importância das avaliações cognitivas após a neurocirurgia e sugere a inclusão de programas de reabilitação cognitiva na prática clínica para pacientes com LEA.

Palabras clave (PT):

neurocirurgia
lesões encefálicas adquiridas
avaliação neuropsicológica
cognição
bateria breve de rastreio cognitivo

Resumen (ES)

Las lesiones cerebrales adquiridas (LCA) causan déficits cognitivos significativos que afectan la calidad de vida y la recuperación funcional de los pacientes. La evaluación cognitiva posquirúrgica suele ser desatendida, especialmente en los países en desarrollo. Este estudio tuvo como objetivo describir el perfil neuropsicológico de pacientes con LCA después de la cirugía y evaluar la viabilidad clínica de la Batería Breve de Cribado Cognitivo (BBCC) en consultas ambulatorias. Se evaluó a 80 participantes, 48 pacientes con LCA y 32 controles, en una consulta ambulatoria de neurocirugía. Los participantes realizaron el Mini-Examen del Estado Mental (MEEM) y la BBCC, que incluye el Test del Dibujo del Reloj (TDR), el Test de Fluidez Verbal (TFV) y el Test de Memoria de Figuras (TMF). Se realizaron análisis descriptivos e inferenciales, incluida la prueba U de Mann-Whitney y correlaciones de Spearman. La muestra se estratificó por edad, nivel educativo y diagnóstico, incluidos las lesiones cerebrovasculares, el traumatismo craneoencefálico y los tumores cerebrales. Los pacientes con LCA presentaron un rendimiento cognitivo significativamente inferior al de los controles, con déficits en seis de las ocho subpruebas de la BBCC y en el MEEM. Los mayores deterioros se observaron en la memoria episódica (TMF) y en las funciones ejecutivas y visoespaciales (TDR). La denominación y la fluidez verbal se mantuvieron dentro de la media, lo que sugiere una preservación parcial de las funciones lingüísticas. La edad se correlacionó negativamente con el MEEM y el TMF, mientras que la escolaridad se correlacionó positivamente con el MEEM y el TDR. No se encontraron asociaciones significativas entre las quejas subjetivas de memoria y el rendimiento cognitivo, excepto en la prueba de fluidez verbal. Los pacientes con LCA presentaron déficits cognitivos en múltiples dominios, especialmente en la memoria y las funciones ejecutivas. La BBCC demostró ser una herramienta viable para el cribado cognitivo ambulatorio. El estudio destaca la importancia de las evaluaciones cognitivas después de la neurocirugía y sugiere la inclusión de programas de rehabilitación cognitiva en la práctica clínica para pacientes con LCA.

Palabras clave (ES):

neurocirugía
lesiones cerebrales adquiridas
evaluación neuropsicológica
cognición
batería breve de cribado cognitivo

Introdução

Uma Lesão Encefálica Adquirida (LEA) é qualquer dano que ocorre no tecido cerebral, tipicamente causado por trauma, acidente, infecção ou doença, excluindo condições neurodegenerativas (Lezak et al., 2012; Miotto et al., 2010). As LEAs geralmente tendem a deixar sequelas físicas, cognitivas e emocionais que resultam em redução da funcionalidade e um declínio na qualidade de vida (Broch, Morais & Mello, 2024; Exner et al., 2022; Filler et al., 2024).

O Traumatismo Cranioencefálico (TCE) e o Acidente Vascular Cerebral (AVC) estão entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo (Broch, Morais & Mello, 2024; Leão & Zanini, 2019). Pacientes que sobrevivem geralmente sofrem de várias sequelas. Além dos déficits motores, as lesões encefálicas adquiridas (LEAs) frequentemente afetam os indivíduos em mais de um domínio cognitivo (Dickmen et al., 2003; Exner et al., 2021). Os pacientes frequentemente enfrentam desafios significativos para retornar completamente aos seus níveis de funcionamento e satisfação de vida anteriores à lesão (Exner et al., 2022; Filler et al., 2024).

Considerando um estudo sobre vítimas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), a recuperação da competência cognitiva aos níveis pré-lesão atingiu aproximadamente 40% (Dickman et al., 2003). Uma investigação abrangente envolvendo populações internacionais revelou que 44% dos indivíduos que sobreviveram a um AVC demonstraram comprometimento cognitivo global significativo, enquanto 30% a 35% apresentaram déficits em domínios cognitivos específicos dentro de um período de 2 a 6 meses após o evento de AVC (Lo et al., 2019). Com o número crescente de sobreviventes de AVC em todo o mundo,  a atenção para as consequências de longo prazo, como os déficits cognitivos, se faz necessária (Filler, Georgakis & Dichgans, 2024).

Em uma investigação envolvendo indivíduos com TCE leve a moderado, déficits cognitivos foram identificados em 41% dos indivíduos aos três meses pós lesão e em 17% no intervalo de doze meses pós lesão (Wang et al., 2023). Os déficits nessa população incluem lentidão no processamento de informações e prejuízo na memória de longo prazo, atenção, memória de trabalho, função executiva, cognição social e autoconsciência (Azouvi et al., 2017; Broch et al, 2024; Wang et al., 2023).

Os tumores cerebrais não são tão prevalentes na população quanto o AVC e o TCE, mas aparecem com bastante regularidade em consultas ambulatoriais de neurocirurgia. Gehrke et al. (2013) conduziram uma revisão sistemática sobre o impacto cognitivo de tumores cerebrais que demonstrou que os gliomas são os tumores primários mais prevalentes, seguidos dos meningiomas. Os déficits cognitivos mais relatados foram memória operacional, funções executivas, velocidade de processamento, busca visual e atenção geral. Idade, nível educacional e gênero também pareceram influenciar os déficits.

Além dos prejuízos que as LEAs podem trazer para a cognição, a neurocirurgia à qual esses pacientes são submetidos como forma de tratamento e manejo do quadro, pode tanto ajudar a melhorar a performance cognitiva quanto contribuir para esses déficits. Em revisão sistemática sobre desfecho cognitivo pós-neurocirurgia de meningioma, Gondar et al. (2021), demonstraram déficit nas habilidades cognitivas em 81% dos estudos, sendo a memória o domínio mais afetado, com comprometimento significativo em 40% dos estudos. Apenas 18,2% dos estudos relataram melhora em pelo menos um domínio cognitivo no pós-operatório. De Roeck et al. (2023) conduziram uma metanálise com pacientes com glioma na qual se verificou que o desempenho cognitivo nos testes Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e Fluência Semântica após um ano da neurocirurgia foi notavelmente inferior comparado com grupos controle.  Há também outros estudos que relatam uma piora de curto prazo pós cirurgia, com melhora progressiva ao longo dos meses subsequentes (Kirkman et al., 2022; Tabor, 2021).

No contexto da saúde pública dos países em desenvolvimento, ainda há pouca ou nenhuma intervenção no campo da neuropsicologia. A investigação e o tratamento subsequente das deficiências cognitivas causadas por lesões cerebrais frequentemente não são considerados uma prioridade pelos profissionais de saúde (Bogstrand et al., 2022; Vittielo et al., 2007), ao contrário das sequelas motoras (Mogensen, 2012; Vangilder et al, 2020). No entanto, os déficits cognitivos podem ser tão ou mais impactantes do que o prejuízo motor.

Atualmente, existem inúmeros testes neuropsicológicos disponíveis para uma avaliação abrangente do funcionamento cognitivo, mas a maioria é longa e exige um tempo considerável para sua administração (Singh, 2021), o que não facilitaria a inclusão no cenário da saúde pública de nosso país. Dois testes de rastreio amplamente utilizados e já adaptados para este contexto são o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e o Teste do Desenho do Relógio (TDR) (Singh et al., 2021). O MEEM foi projetado para avaliar funções cognitivas, incluindo orientação, memória, atenção, cálculo, linguagem e a capacidade de seguir comandos simples. Apesar de sua capacidade prática e rápida de rastreio, ele não cobre domínios específicos com maior profundidade (Vittielo et al., 2007) e não é a melhor escolha para amostras com baixa escolaridade (Scarabelot et al., 2019; Yassuda et al, 2017).

O TDR é amplamente utilizado no contexto das LEAs, avaliando funções executivas, habilidades visuoespaciais e memória, sendo uma escolha prática por sua simplicidade e rapidez. Estudos indicam que pontuações mais baixas no TDR se correlacionam com níveis mais altos de comprometimento cognitivo (Champod et al, 2019; Cova et al, 2022). Há limitações, no entanto, pois sua sensibilidade e especificidade são moderadas, o que torna interessante a administração do TDR em conjunto com outros testes para uma avaliação mais abrangente, como é o caso do MoCA (Montreal Cognitive Assessment) e da BBRC (Bateria Breve de Rastreio Cognitivo).

A inclusão de um instrumento de rastreio cognitivo rápido, e ao mesmo tempo um pouco mais abrangente, nas consultas ambulatoriais pós-cirúrgicas (neurocirurgia de crânio) seria extremamente útil, facilitando o encaminhamento para um programa de reabilitação. Estudos de viabilidade (feasibility studies) são utilizados para investigar se um instrumento, procedimento ou intervenção pode ser implementado de forma prática e sustentável em contextos clínicos reais, considerando aspectos como aplicabilidade, praticidade, implementação e potencial utilidade clínica antes de estudos mais robustos de eficácia ou validade psicométrica formal (Bowen et al., 2009). Em contextos ambulatoriais de neurocirurgia, especialmente em serviços públicos com limitações de tempo e recursos, instrumentos breves de rastreio cognitivo precisam não apenas identificar possíveis déficits, mas também demonstrar viabilidade clínica para integração à rotina assistencial.

A Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC) é um instrumento que pode preencher essa lacuna. Ele avalia atenção, memória episódica e semântica, habilidades visuoespaciais/construtivas, linguagem e funções executivas, com boa precisão na identificação de déficits cognitivos em indivíduos com níveis educacionais heterogêneos (Nitrini, 2021; Peles, 2022). A BBRC é composta pelo Teste do Desenho do Relógio (TDR), Teste de Fluência Verbal (TFV) e Teste de Memória de Figuras (TMF).

O uso da BBRC no contexto do envelhecimento saudável e em pacientes com comprometimento cognitivo leve e demência está bem documentado na literatura (Charchat Fichman, 2016; Nitrini et al., 2008; Nitrini et al., 2021; Peles et al., 2022). No entanto, até o momento, ao que se sabe, houve apenas um estudo utilizando a BBRC em pacientes com LEA, especificamente em casos de TCE. Nesse estudo, apenas um dos subtestes da BBRC foi utilizado: o Teste Memória de Figuras (TMF), além do MEEM. Comparados com controles, pacientes vítimas de TCE apresentaram uma performance significativamente pior no MEEM e em várias etapas do FMT (de Freitas Cardoso et al., 2019).

Vários estudos na literatura demonstram o impacto cognitivo após lesões encefálicas adquiridas (Azouvi et al., 2017; Corrêa, 2010; Cova et al., 2022; De Roeck et al., 2023; Wang et al., 2023). Considerando os prejuízos funcionais associados a esses déficits, torna-se fundamental ampliar a investigação cognitiva no contexto pós-neurocirúrgico, especialmente em serviços públicos de saúde, nos quais avaliações neuropsicológicas extensas nem sempre são viáveis na rotina clínica. Nesse contexto, o presente estudo pretende contemplar essa lacuna, descrevendo o perfil neuropsicológico pós-cirúrgico de pacientes com Lesão Encefálica Adquirida (LEA), comparando com um grupo controle de pacientes com condições pós cirúrgicas da coluna, demonstrando a necessidade da adoção de testes de rastreio cognitivo para essa população em ambientes ambulatoriais e/ou hospitalares e o posterior encaminhamento para reabilitação. Ademais, visa verificar a viabilidade clínica da BBRC em ambientes ambulatoriais pós-cirúrgicos. A escolha da BBRC fundamenta-se em suas características de rápida aplicação, facilidade de administração, abrangência de múltiplos domínios cognitivos e utilização prévia em diferentes populações neurológicas, incluindo indivíduos com heterogeneidade educacional (Nitrini et al., 2021; Peles et al., 2022) e atuando de forma complementar ao MEEM.

Método

Participantes

No presente estudo, 80 pacientes, que passaram por neurocirurgia recente (de 2 a 10 meses antes), com mais de 18 anos, entre 27 e 82 anos (M=50,01; DP=14,30) e com nível educacional variando de 2 a 16 anos (M=9,98; DP=3,13), foram avaliados no ambulatório de neurocirurgia de um hospital público no Rio de Janeiro. Os sujeitos foram divididos em dois grupos: grupo LEA (n=48) e grupo Coluna (n=32).

O grupo LEA foi constituído por pacientes que frequentaram consulta ambulatorial no hospital e que haviam realizado neurocirurgia cerebral recente no mesmo hospital devido a uma Lesão Encefálica Adquirida.

O grupo Coluna foi utilizado como grupo controle por representar uma população clínica submetida a contexto hospitalar e pós-cirúrgico semelhante ao grupo LEA, porém sem envolvimento direto de lesão encefálica. Essa escolha metodológica permitiu controlar parcialmente fatores relacionados à hospitalização, ao impacto emocional da neurocirurgia, ao acompanhamento ambulatorial e às características sociodemográficas da amostra, como idade e escolaridade, aumentando a robustez das comparações cognitivas realizadas no estudo.

Os critérios de exclusão para ambos os grupos foram: a presença de déficit sensorial ou motor que pudesse comprometer a avaliação neuropsicológica; e histórico de transtorno neurocognitivo maior e/ou transtorno psiquiátrico grave.

Instrumentos

Nesse estudo foram utilizados dois instrumentos: o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) (Folstein, Folstein, & McHugh, 1975) e a Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC) (Nitrini et al., 1994). Esta última é composta pelo Teste de Memória de Figuras (TMF), Teste de Fluência Verbal (TFV) e Teste do Desenho do Relógio (TDR) (Nitrini, 1994; Nitrini, 2008).

O Mini Exame do Estado Mental (MEEM) é uma ferramenta de triagem cognitiva amplamente utilizada, projetada para avaliar funções cognitivas, como orientação, memória, atenção, cálculo, linguagem e a capacidade de seguir comandos simples. Ele é frequentemente empregado tanto em contextos clínicos quanto em pesquisas para avaliar o comprometimento cognitivo e monitorar mudanças ao longo do tempo (Folstein et al., 1975; Brucki et al., 2003).

A BBRC leva de 7 a 8 minutos para ser aplicada e composta pelos testes TMF, TFV e TDR. São testes validados e padronizados que avaliam atenção, memória episódica e semântica, habilidades visuoespaciais/construtivas, linguagem e funções executivas.

A avaliação começa com o Teste de Memória de Figuras (TMF), que consiste em seis etapas: 1. Nomeação, 2. Memória Incidental, 3. Memória Imediata, 4. Aprendizagem, 5. Memória Tardia, 6. Reconhecimento.

Na primeira etapa (Nomeação), os participantes são apresentados a uma folha de papel contendo 10 figuras de objetos simples, e devem nomear esses objetos. As três etapas seguintes incluem Memória Incidental, Memória Imediata e Aprendizagem. A folha é mostrada por 30 segundos e, em seguida, retirada, momento em que os participantes devem recordar as figuras que acabaram de ver. Isso se repete por 3vezes. Após essas três etapas, há um breve intervalo com uma tarefa de interferência heterogênea, durante a qual os outros dois testes da BBRC são administrados: o Teste de Fluência Verbal (TFV) (categoria animais), no qual os participantes nomeiam o maior número de animais possível em 1 minuto, e o Teste do Desenho do Relógio (TDR), em que eles são solicitados a desenhar um relógio com os ponteiros marcando 2:45. Para concluir as duas últimas etapas, retorna-se ao TMF, e os participantes são convidados a recordar espontaneamente as figuras vistas anteriormente (Memória Tardia), seguida pela etapa de Reconhecimento, em que as 10 figuras são apresentadas misturadas com 10 distratores. A pontuação no TMF e no TDR varia de 0 a 10 (Charchat-Fichman et al., 2016; Nitrini et al., 2007; Nitrini et al., 2021).

Procedimentos

Os pacientes foram recrutados e avaliados pela equipe de neuropsicologia de julho de 2022 a julho de 2023, durante suas consultas no ambulatório de neurocirurgia do hospital. Após obter o consentimento do paciente para participar da pesquisa, foi realizada uma breve entrevista semiestruturada para investigar o histórico médico, queixas sobre sintomas no último mês e o diagnóstico de cada participante, além da coleta de dados demográficos, como: gênero, idade e nível educacional. Em seguida, foram aplicados o MEEM e a BBRC. Todo o processo levou aproximadamente 30 minutos. Todos os participantes seguiram o mesmo protocolo neuropsicológico.

Análise de dados

Os dados foram analisados utilizando JASP 0.19.0.0 considerando valores de p ≤ 0,05 como estatisticamente significativos. Primeiramente, para a caracterização da amostra, foram incluídos dados descritivos como gênero, idade, escolaridade, diagnóstico e se havia a presença de queixa subjetiva de memória. Em seguida, a amostra foi estratificada em dois grupos: clínico (LEA) e controle (Coluna), com a apresentação de dados tanto descritivos quanto inferenciais.

Para as análises inferenciais, a normalidade da amostra foi testada usando o teste de Shapiro-Wilk. Como as variáveis apresentaram um valor p <0,05, não indicando distribuição normal, foi utilizado o teste não paramétrico U de Mann-Whitney para comparar o desempenho do MEEM e da BBRC entre os dois grupos: LEA e coluna. Além disso, para avaliar a magnitude do efeito, o D de Cohen foi calculado.

Em seguida, o grupo LEA foi estratificado em subgrupos:

  • Com base na idade: grupo idade 1 (GI1) entre 20 e 40 anos; grupo idade 2 (GI2) entre 40 e 59 anos; e grupo idade 3 (GI3) superior a 60 anos.
  • Com base na escolaridade: ensino fundamental (EF), ensino médio (EM) e ensino superior (ES).
  • Com base nos diagnósticos: lesões cerebrovasculares (LC), traumatismo cranioencefálico (TCE), tumor cerebral (TC) e outras lesões encefálicas (OLE).

Aspectos éticos

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (número CAAE 42541521.5.1001.5279). Todos os voluntários que participaram desta pesquisa assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo com a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que aborda as diretrizes e normas regulamentadoras para pesquisa envolvendo seres humanos.

Resultados

Os resultados estão expressos em gráficos e tabelas e foram organizados em subitens de acordo com as análises realizadas para uma melhor compreensão.

A Tabela 1 apresenta os dados descritivos de caracterização da amostra total.

Tabela 1. Dados descritivos dos pacientes do Ambulatório de Neurocirurgia.
VariávelPacientes da Clínica AmbulatorialGrupo LEAGrupo Controle
N=80N=48N=32
Sexo (%)
Feminino39 (48,75%)27 (56,25%)12 (37,50%)
Masculino41 (48,75%)21 (43,75%)20 (62,50%)
Idade (M, dp)50,00 (14,30)48,48 (15,55)51,56 (12,26)
Grupo Idade (%)
Entre 20 e 40 anos24 (30,00%)17 (35,42%)7 (21,88%)
Entre 41 e 59 anos33 (41,25%)18 (37,50%)15 (46,88%)
60 anos ou mais23 (28,75%)13 (27,08%)10 (31,25%)
Escolaridade em Anos (M, dp)9,97 (3,13)9,90 (3,38)10,09 (2,76%)
Grupo Escolaridade (%)
Ensino Fundamental38 (47,50%)22 (45,83%)16 (50,00%)
Ensino Médio31 (38,75%)19 (39,58%)12 (37,50%)
Ensino Superior11 (13,75%)7 (14,58%)4 (12,50%)
Estado Civil (%)
Solteiro(a)25 (31,25%)22 (45,83%)3 (9,38%)
Casado(a)39 (48,75%)22 (45,83%)17 (53,13%)
Divorciado(a)10 (12,50%)1 (2,08%)9 (28,13%)
Viúvo(a)6 (7,50%)3 (6,25%)3 (9,38%)
Queixa Subjetiva de Memória (%)
Presença40 (50,00%)35 (72,91%)5 (15,63%)
Ausência40 (50,00%)13 (27,08%)27 (84,37%)
Legenda: LEA= Lesão Encefálica Adquirida; M=Média; dp=desvio padrão.

A Figura 1 sintetiza a frequência de cada grupo de sintomas relatados pelos pacientes do grupo LEA na anamnese. E a Tabela 2 caracteriza a frequência dos diagnósticos desse mesmo grupo clínico. São eles: tumor cerebral (TC), traumatismo cranioencefálico (TCE), lesões cerebrovasculares (LC) e outras lesões encefálicas (OLE).

Figura 1. Sintomas relatados durante consulta ambulatorial no grupo LEA
Figura 1. Sintomas relatados durante consulta ambulatorial no grupo LEA

Comparações entre grupo clínico (LEA) e controle (Coluna)

A Tabela 3 demonstra, utilizando o teste U de Mann-Whitney, uma comparação do desempenho dos grupos no MEEM e nos subtestes da BBRC. Pode-se observar que, dos 8 subtestes da BBRC, 6 apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos, além do MEEM, confirmando a hipótese de pior desempenho para o grupo clínico (LEA).

Apenas os subtestes Nomeação (TMF) e Fluência Verbal não apresentaram essa diferença. Memória incidental (TMF) (p<0,02 d=0,59), Memória Tardia (TMF)(p<0,001 d=0,59) e TDR(p<0,001 d=0,62) tiveram, inclusive, um tamanho de efeito moderado.

Tabela 2. Frequência de diagnósticos do grupo LEA.
VariávelGrupo LEA
n=48
Diagnóstico (%)
Tumor Cerebral (TC)24 (50%)
Traumatismo Crânio Encefálico (TCE)7 (14,6%)
Lesões Cerebrovasculares (LC)15 (31,3%)
Outras Lesões Encefálicas (OLE)2 (4,2%)
*LEA= Lesão Encefálica Adquirida; M=Média; dp=desvio padrão.
Tabela 3. Comparação do desempenho do grupo LEA e do grupo Controle no MEEM e nos subtestes da BBRC.
InstrumentosGrupo LEA M (dp)Grupo Controle M (dp)U  de Mann-WhitneypD de CohenMagnitude do Efeito
MEEM-30
24,67
(5,17)
26,91
(2,51)
959,500,02*0,24Fraco
Nomeação (TMF)
9,40
(1,81)
10,00
(0,00)
---Nulo
Memória Incidental (TMF)
5,04
(1,97)
7,13 
(1,33)
1223,500,02*0,59Moderado
Memória Imediata (TMF)
6,83
(2,10)
7,69 
(1,20)
959,000,05*0,24Fraco
Aprendizagem (TMF)
7,54
(1,94)
8,31 
(0,69)
933,500,05*0,21Fraco
Memória Tardia (TMF)
6,00
(2,56)
8,19 
(0,96)
1224,00<0,001*0,59Moderado
Reconhecimento (TMF)
9,06
(2,04)
9,97 
(0,17)
1035,50<0,001*0,34Fraco
Fluência Verbal – Animais
13,31
(6,17)
14,31
(2,78)
921,500,060,20Fraco
Teste do Desenho do Relógio
5,67
(2,49)
8,22 
(1,21)
1244,50<0,001*0,62Moderado
Nota: LEA=Lesão Encefálica Adquirida; MEEM= Mini Exame do Estado Mental; TMF= Teste de Memória de Figuras; *O limite de significância para o valor p é definido em ≤0,05.

O impacto da idade e escolaridade no desempenho nos testes

A Tabela 4 apresenta diferença estatisticamente significativa apenas no MEEM (p<0,05) entre os grupos de idade. Com os grupos de idade mais avançada obtendo pontuação menor do que grupos de idade mais jovem nesse teste. Já através da correlação de Spearman, identificou-se que a idade se correlaciona negativamente com o desempenho no MEEM (r=-0,403 p=0,004), com a etapa de Memória Incidental (r=-0,348 p=0,015) e Memória Imediata (r=-0,353 p=0,014).

Para investigar o desempenho de pacientes com LEA por grupos de escolaridade, foram adotadas as seguintes estratificações: ensino fundamental (n=22), ensino médio (n=19) e ensino superior (n=7). Como demonstrado na Tabela 5, entre os grupos de escolaridade, uma diferença estatisticamente significativa foi encontrada apenas no MEEM (p<0,05). Através da correlação de Spearman pôde-se observar que a escolaridade tem correlação positiva e significativa com o desempenho no TDR e no MEEM (p<0,05).

Tabela 4. Comparação do desempenho de pacientes com Lesão Encefálica Adquirida: por grupos de idade e correlação da idade com o desempenho nos testes.
InstrumentoKruskal-WallisglpDunn Teste (p)Correlação de Spearman (p)
GI1 X GI2GI1 X GI3GI2 X GI3
MEEM-3012,4742<0,05*0,05*<0,05*<0,05*<0,05*
Nomeação (TMF)0,73820,690,450,510,900,44
Memória Incidental (TMF)0,15920,920,700,800,98<0,05*
Memória Imediata (TMF)2,14920,340,170,320,99<0,05*
Aprendizagem (TMF)0,32520,850,690,600,810,29
Memória Tardia (TMF)0,47220,790,500,690,930,19
Reconhecimento (TMF)1,49120,470,330,700,290,55
Fluência Verbal – Animais3,01620,220,670,080,160,32
Teste do Desenho do Relógio4,98420,080,220,030,200,27
Nota: MEEM= Mini Exame do Estado Mental; TMF= Teste de Memória de Figuras; gl = Grau de Liberdade; GI1 = Grupo de Idade Entre 20 e 40 anos; GI2 = Grupo de Idade Entre 41 e 59 anos; GI3 = Grupo de Idade com 60 anos ou mais; *O limite de significância para o valor p é definido em ≤0,05.
Tabela 5. Comparação do desempenho de pacientes com Lesão Encefálica Adquirida: por grupos de escolaridade.
InstrumentoKruskal-WallisglpDunn Teste (p)Correlação de Spearman (p)
EF X EMEF X ESEM X ES
MEEM-3012,4742<0,05*0,06<0,05*<0,05*<0,05*
Nomeação (TMF)0,73820,690,450,510,900,53
Memória Incidental (TMF)0,15920,920,700,800,980,71
Memória Imediata (TMF)2,14920,340,170,320,990,28
Aprendizagem (TMF)0,32520,850,690,600,810,50
Memória Tardia (TMF)0,47220,790,500,690,930,52
Reconhecimento (TMF)1,49120,470,330,700,290,60
Fluência Verbal – Animais3,01620,220,670,840,160,10
Teste do Desenho do Relógio4,98420,080,22<0,05*0,20<0,05*
Nota: MEEM= Mini Exame do Estado Mental; TMF= Teste de Memória de Figuras; gl = Grau de Liberdade; EF = Ensino Fundamental; EM = Ensino Médio; ES = Ensino Superior; *O limite de significância para o valor p é definido em ≤0,05.

Comparações no desempenho a partir dos grupos de Diagnóstico

Foi realizada uma análise comparando o desempenho dos pacientes do grupo LEA de acordo com seus respectivos diagnósticos. A Tabela 6 indica diferenças estatisticamente significativas encontradas pelo Post hoc na Memória Imediata TCE x LC (p=0,04), com TCE desempenhando pior que LC; e na Memória Tardia TC x TCE (p=0,05), com TCE pontuando pior que TC, e TCE x LC (p=0,02) com TCE também tendo pior desempenho que LC.

Sintomas relatados pelo grupo LEA

Uma análise de correlação de Spearman foi realizada para verificar se os sintomas relatados pelos pacientes do grupo LEA se relacionavam com o desempenho nos testes. Não foram encontradas correlações significativas.

Tabela 6. Comparação do desempenho de pacientes com Lesão Encefálica Adquirida: por grupo diagnóstico.
InstrumentoKruskal-WallisglpValor p do Dunn Teste
TC X TCETC X LCTC X OLETCE X LCTCE X OLELC X OLE
MEEM-301,91530,590,240,400,440,610,940,70
Nomeação (TMF)3,64230,300,510,270,290,150,540,13
Memória Incidental (TMF)0,23130,970,960,800,720,820,760,65
Memória Imediata (TMF)4,52930,210,070,630,710,04*0,190,87
Aprendizagem (TMF)2,83030,410,140,770,590,120,770,52
Memória Tardia (TMF)5,26930,150,05*0,530,970,02*0,310,76
Reconhecimento (TMF)3,83330,280,070,780,790,060,480,70
Fluência Verbal – Animais3,49130,320,970,210,130,360,160,35
Teste do Desenho do Relógio2,62730,450,210,520,860,100,610,96
Nota: MEEM= Mini Exame do Estado Mental; TMF= Teste de Memória de Figuras; gl = Grau de Liberdade; TC = Tumor Cerebral; TCE = Traumatismo Crânio Encefálico; LC = Lesões Cerebrovasculares; OLE = Outras Lesões Encefálicas; *O limite de significância para o valor p é definido em ≤0,05.

Queixa subjetiva de memória

Com relação à queixa subjetiva de memória, dois grupos (com queixa x sem queixa) foram comparados em relação ao desempenho nos testes. A única diferença significativa encontrada na análise foi que o grupo sem queixa subjetiva de memória obteve um melhor desempenho no teste de Fluência Verbal (U= 339,000 p=0,021), quando comparado ao grupo com queixa.

Discussão

A amostra do presente estudo foi composta por um grupo clínico - LEA (n=48) e um grupo controle - Coluna (n=32). Não houve discrepância entre as médias de idade e escolaridade dos dois grupos (Tabela 1). No entanto, foram observadas variações em relação ao diagnóstico e ao gênero.O tumor cerebral (TC) foi o diagnóstico mais prevalente (50%) (Tabela 2), seguido de lesões cerebrovasculares (LC) (31%) e traumatismo cranioencefálico (TCE) (14%).

O presente estudo também contou com uma proporção ligeiramente maior de pacientes do sexo feminino (56,3%) (Tabela 1). Na literatura científica, a prevalência de LEA varia significativamente de acordo com o sexo e a idade. Observa-se que a porcentagem de homens com TCE é consideravelmente maior do que a de mulheres (Biegon, 2021; Merrit et al, 2022). No caso de AVC, a prevalência padronizada por idade foi semelhante entre os sexos, com homens em 2,9% e mulheres em 3,2% de 1999 a 2018 (Andres et al., 2023). Já as taxas de incidência de tumores cerebrais malignos são mais altas em homens, enquanto tumores não malignos são mais prevalentes em mulheres. Isso indica uma disparidade de gênero na ocorrência de diferentes tipos de tumores cerebrais (Miller, et al, 2021), porém, no geral, há uma predominância feminina na prevalência de tumores cerebrais, com uma representação de aproximadamente 60% (Mrugala et al., 2023). Esse último achado reflete bem a amostra do presente estudo, com uma prevalência maior de mulheres, já que o diagnóstico mais prevalente foi tumor cerebral (50%).

Comparações entre grupo clínico (LEA) e controle (Coluna)

Como observado na Tabela 3, a comparação das médias de cada subteste da BCSB entre os dois grupos revelou diferenças estatisticamente significativas no MEEM e em 6 dos 8 subtestes da BRRC.

Os únicos subtestes sem diferenças significativas foram Nomeação (TMF) e Fluência Verbal, inclusive com as médias de ambos os grupos situando-se dentro dos pontos de corte estabelecidos na literatura (Brucki et al., 2003). Alguns outros estudos também demonstraram achados compatíveis com o do presente estudo no teste de Nomeação, sendo relatado que também não foram encontradas diferenças entre o grupo LEA e o grupo controle (Brooks, Greve, & Hammond, 1999; Vaughan et al., 2017).

No entanto, em contraste com os achados do presente estudo no teste de Fluência Verbal, Goldstein et al. (2004) encontraram diferenças entre grupo controle e clínico em uma amostra heterogênea de tumores cerebrais, assim como Egorova-Brumley et al. (2022), que demonstrou prejuízo em fluência verbal em pacientes com diferentes tipos de AVC. Esta última autora ainda concluiu que um desempenho ruim em fluência verbal está associado a um maior risco de déficits cognitivos pós-AVC (Egorova-Brumley et al., 2022). Além disso, um outro estudo demonstrou que a fluência verbal é um forte preditor de autoconsciência em pacientes com LEA tanto antes quanto após a reabilitação (Villalobos et al., 2021). Dessa forma, pode-se inferir que o desempenho satisfatório da presente amostra em fluência verbal provavelmente indica boa autoconsciência de seus déficits, o que pode influenciar positivamente nos programas subsequentes de reabilitação cognitiva.

Um outro dado que se relaciona a essa hipótese de autoconsciência, é a análise da relação entre queixa subjetiva de memória e o desempenho nos testes. No presente estudo, apenas o teste de Fluência Verbal demonstrou uma diferença significativa entre o grupo com queixa e o grupo sem queixa, com este último obtendo um melhor desempenho, indicando, portanto, boa autoconsciência neste caso em particular. O grupo sem queixa obteve média de 14,6 (dp=6,11), o que é considerado acima do ponto de corte de 13,  já o grupo com queixa obteve média de 12,7 (dp=6,20), considerado levemente abaixo do ponto de corte. Não foram encontradas associações significativas entre queixa subjetiva de memória e os demais testes, assim como relatado nos estudos de Caramelli & Beato (2008) e Reid & Maclullich (2006).

Considerando os testes que apresentaram diferenças entre o grupo clínico e controle, no MEEM, a média do grupo LEA foi de 24,67(dp=5,17) enquanto a média do grupo controle foi 26,91 (dp 2,51) (Tabela 3). Falta consenso e padronização no uso do MEEM como ferramenta de avaliação neuropsicológica para pacientes com lesão cerebral adquirida (Pereira et al, 2012). Encontram-se na literatura diferentes pontos de corte, de acordo com a escolaridade, como o de 27/28 (Jafroudi et al, 2023), 27 (Brucki et al., 2003), 25 encontrado por Pereira et al. (2012) para diferenciar entre comprometimento cognitivo e cognição intacta. A presente amostra tem escolaridade superior a 9 anos, portanto, se compararmos com o ponto de corte de 27 (Brucki et al., 2003), observamos um resultado abaixo da linha de corte. Em outras pesquisas com LEA, foram relatados desempenhos também inferiores, assim como o do presente estudo, no MEEM, quando comparados à grupos controle (De Guise et al., 2013; Jafroudi et al., 2023). Em virtude dessa disparidade de pontos de corte, há concordância de que o teste deve ser usado apenas como ferramenta de triagem e não como critério diagnóstico (Pereira et al., 2012).

Pode-se observar que no Teste do Desenho do Relógio (TDR), o grupo LEA pontuou bem abaixo do grupo controle (Tabela 3) com magnitude de efeito moderada (d=0,62). A literatura também relata pontuações significativamente mais baixas no TDR em pacientes com LEA (Champod et al., 2019; Cova et al., 2022; Singh et al., 2021), uma vez que os impactos nas funções executivas dessa amostra clínica são comuns, especialmente naqueles que sofreram AVC e TCE (Skidmore, Eskes, & Brodtmann, 2023; Ozga et al., 2018). O TDR avalia funções executivas e habilidades visuoespaciais, sendo eficaz na detecção de déficits cognitivos com aplicação rápida. Alguns estudos relataram que pacientes com pontuações normais no MEEM podem ter um desempenho pior no TDR (Montiel et al., 2014; Singh et al., 2021), ressaltando a vantagem de incluir este teste no presente estudo.

Em relação ao último teste que integra a BBRC, no Teste Memória de Figuras (TMF), o grupo clínico apresentou pontuações mais baixas em todas as etapas da memória em comparação com o grupo controle. A BBRC é amplamente utilizada em contextos de envelhecimento e em pacientes com comprometimento cognitivo leve e demência. No entanto, o único estudo envolvendo pacientes com LEA (TCE) que utilizou o TMF obteve resultados consistentes com o presente estudo, com o grupo clínico apresentando pontuações mais baixas do que os controles pareados por idade e escolaridade (de Freitas Cardoso, 2019). Em nossa amostra, o grupo LEA apresentou um resultado significativamente pior do que o controle na Memória Tardia do TMF, com tamanho de efeito moderado. A etapa de Memória Tardia do TMF é excelente preditor de comprometimento cognitivo em diversos estudos, de diferentes contextos, como envelhecimento e comprometimento cognitivo geral (Nitrini et al., 2021). Há outros relatos na literatura com resultados compatíveis com os nossos em relação a pacientes vítimas de LEA apresentando prejuízo em memória episódica tardia (Corrêa, 2010; Miotto et al., 2010).

A inclusão da BBRC no estudo

Embora a BBRC e o TMF sejam bem estabelecidos nos contextos de envelhecimento e demência, o TMF não tem sido amplamente utilizado especificamente em amostras de pacientes com LEA, ao contrário do TDR e da Fluência Verbal. A decisão de incluir o TMF no presente estudo é valiosa por várias razões: 1) Desempenho de Memória- A literatura indica que pacientes com LEA frequentemente enfrentam dificuldades com a memória episódica e visuoespacial (Champod et al., 2019; Cova et al., 2022). O TMF, sendo um teste mais abrangente de memória comparado ao MEEM, contemplando a memória incidental, imediata, aprendizagem e memória tardia, é útil para identificar e quantificar melhor os déficits. O TMF demonstrou alta sensibilidade e especificidade para o diagnóstico de comprometimento da memória episódica (Nitrini et al., 2021). 2) Avaliação Detalhada em Curto Período - O uso do TMF, apesar de ser de rápida aplicação, pode revelar nuances no desempenho da memória que não são capturadas por testes menos específicos, o que é crucial tanto para um diagnóstico assertivo quanto para desenvolver planos de reabilitação mais direcionados e eficazes. 3) Comparações com outras amostras - Estudos anteriores mostraram que o TMF é eficaz na diferenciação entre pacientes com distúrbios cognitivos e controles (Nitrini et al., 2021; De Freitas Cardoso et al., 2019), mas sua aplicação em LEA ainda é limitada. A inclusão do TMF pode fornecer novas percepções e comparações relevantes com outras amostras e tipos de lesão, no contexto das LEAs.

Ao incorporarmos a BBRC no presente estudo, foi possível observar sua viabilidade clínica no contexto ambulatorial pós-neurocirúrgico, especialmente considerando sua rápida aplicação, facilidade de administração e capacidade de identificar diferenças cognitivas relevantes entre pacientes com LEA e o grupo controle em um cenário real de assistência pública. Esses aspectos reforçam seu potencial como instrumento complementar de rastreio cognitivo em ambientes ambulatoriais e hospitalares

Influência da idade e escolaridade no desempenho dos testes

Considerando a ampla variabilidade etária e educacional da amostra, análises estratificadas e correlacionais foram realizadas com o objetivo de investigar o possível impacto dessas variáveis sobre o desempenho cognitivo. Embora essa heterogeneidade represente uma limitação metodológica inerente a estudos clínicos realizados em contextos ambulatoriais reais, ela também reflete características frequentemente encontradas na população atendida pelo sistema público de saúde.

Para entender melhor a influência da educação na cognição, a amostra foi estratificada em grupos distintos (ensino fundamental, ensino médio, ensino superior). O MEEM foi o único teste que revelou diferenças estatisticamente significativas entre esses grupos (Tabela 5), com os pacientes de ensino superior apresentando pontuações mais elevadas em comparação aos grupos de ensino médio e fundamental. Esse achado está em concordância com a literatura, que demonstra que os pontos de corte do MEEM variam conforme o nível educacional (Brucki et al., 2003), visto que indivíduos com maior escolaridade tendem a ter um desempenho cognitivo superior (Kochhann et al., 2009).

Além disso, embora não tenham sido encontradas diferenças significativas no desempenho geral dos grupos com diferentes níveis de escolaridade no TDR, uma análise comparativa entre pares revelou uma diferença significativa entre o grupo com ensino fundamental e o grupo com ensino superior. Também foi observada uma correlação significativa, indicando que quanto maior a escolaridade, melhor o desempenho (Tabela 5) dos pacientes neste paradigma de avaliação das funções executivas. Essa vantagem de desempenho em pacientes com mais anos de escolaridade pode ser explicada pelo conceito de reserva cognitiva, que sugere que indivíduos com maior escolaridade têm uma capacidade aumentada de compensar perdas cognitivas em condições neurológicas, utilizando estratégias mais eficientes para lidar com demandas cognitivas (Stern, 2021).

Diferenças significativas também foram observadas entre os grupos etários (20-40, 41-59, 60 ou mais), com os adultos mais jovens apresentando pontuações superiores em comparação aos adultos mais velhos (Tabela 4) no MEEM. Estudos prévios utilizando o MEEM também relataram resultados semelhantes (Kochhann et al., 2009). Nas tarefas de memória do TMF, verificou-se uma correlação entre o aumento da idade e o declínio no desempenho cognitivo (Tabela 4). A correlação de Spearman indicou que o grupo de 20-40 anos apresentou desempenho significativamente melhor do que o grupo de 60 anos ou mais, tanto na memória incidental (p=0,04) quanto na memória imediata (p=0,04), sugerindo uma maior dificuldade dos adultos mais velhos em reter informações visuais na memória de curto prazo, achado este congruente com a literatura (Nitrini et al., 2021).

Diferenças entre os grupos diagnósticos

De acordo com a Tabela 6, é possível observar que, dentre os grupos diagnósticos (tumor cerebral – TC; lesões cerebrovasculares – LC; traumatismo cranioencefálico - TCE) foram encontradas diferenças significativas apenas na Memória Imediata (TCE x LC) e na Memória Tardia (TC x TCE, TCE x LC). Em todas elas, o grupo TCE obteve pontuação inferior aos outros grupos. Essa dificuldade em memória episódica é bastante relatada em pacientes com TCE e pode ser atribuída principalmente a interrupções estruturais e funcionais no cérebro, particularmente nos lobos temporais e regiões pré-frontais que são cruciais para a memória (Taing et al., 2021). Estudos funcionais com ressonância magnética demonstram ativação aumentada no giro temporal médio e no sulco temporal superior durante tarefas de memória, sugerindo mecanismos compensatórios ou ineficiências no processamento neuronal (Taing et al., 2021). Além de estratégias compensatórias ineficientes, também é relatado na literatura atrofia e disfunção hipocampal como prováveis geradores do déficit em memória no TCE (Fortier-Lebel et al., 2021; Yan et al;, 2017).

Perfil neuropsicológico

Para estabelecer um perfil neuropsicológico para esta amostra de pacientes com LEA, foi feita uma comparação das médias do grupo clínico diretamente com as médias do grupo controle. Além dessa comparação, para fornecer uma base mais robusta, a média do grupo clínico também foi comparada com os dados normativos encontrados na literatura.

A análise do perfil neuropsicológico dos pacientes com Lesão Encefálica Adquirida (LEA) mostrou um comprometimento cognitivo leve, com déficits em múltiplos domínios avaliados pelos testes aplicados.

No MEEM, observou-se que o grupo LEA apresentou um desempenho significativamente inferior ao grupo controle, com uma média de 24,67 (dp=5,17), abaixo do ponto de corte de 27 para indivíduos com 9 anos de escolaridade (Brucki et al., 2003). Isso sugere que a amostra de pacientes apresenta um comprometimento cognitivo global.

O desempenho no Teste de Desenho do Relógio (TDR) foi ainda mais indicativo de prejuízo nas funções executivas e habilidades visuoespaciais. O grupo LEA obteve uma pontuação média de 5,67 (dp=2,49), enquanto o grupo controle apresentou uma média de 8,22 (dp=1,21), com uma diferença estatisticamente significativa, corroborando com estudos prévios que associam lesões encefálicas adquiridas a déficits nestes domínios (Champod et al., 2019; Cova et al., 2022).

No Teste de Memória de Figuras (TMF), o grupo LEA demonstrou déficits substanciais em memória episódica, especialmente na etapa de Memória Tardia, com uma pontuação média de 6,00 (dp=2,56), significativamente abaixo do grupo controle (8,19, dp=0,96). Este resultado reforça o impacto das lesões encefálicas sobre a memória episódica. Inclusive, a média do grupo controle encontrada no presente estudo em Memória Tardia é compatível com a média dos dados normativos de idosos saudáveis encontrados por Yassuda et al. (2017), (média 8,20,  dp=1,24).

Pacientes com TCE e AVC geralmente apresentam déficits na memória episódica e nas funções executivas (Zhang et al., 2016; Champod et al., 2019; Cova et al., 2022; Singh et al., 2021). Em casos de tumores cerebrais, dependendo do tipo e localização, déficits nessas duas funções cognitivas críticas também podem ser observados, com alguma possível melhora após a neurocirurgia (Chieffo et al., 2023).

No Teste de Fluência Verbal, que avalia a capacidade de acessar rapidamente palavras dentro de uma categoria semântica específica (animais), o grupo LEA apresentou uma pontuação média de 13,31 (dp=6,17), em comparação com 14,31 (dp=2,78) do grupo controle, sem uma diferença estatisticamente significativa (p=0,06). Além de não haver uma diferença significativa, o desempenho do grupo LEA esteve dentro do ponto de corte sugerido para indivíduos com mais de 8 anos de escolaridade (13 pontos), o que pode indicar preservação parcial das funções linguísticas e do controle executivo verbal. Estudos anteriores sugerem que déficits em fluência verbal podem estar associados a lesões em áreas pré-frontais e temporais, com impacto sobre funções executivas e autoconsciência (Goldstein et al., 2004; Egorova-Brumley et al., 2022). No presente estudo, o desempenho adequado na fluência verbal pode estar relacionado a uma boa autoconsciência dos déficits cognitivos, o que é relevante para a reabilitação.

E, finalmente, a correlação de Spearman mostrou que a idade teve uma influência negativa sobre o desempenho no MEEM e nas etapas de Memória Incidental e Imediata do TMF, enquanto a escolaridade se correlacionou positivamente com o desempenho no TDR e no MEEM. Esses achados estão de acordo com a literatura e destacam a importância da reserva cognitiva e do impacto da idade no desempenho neuropsicológico.

Uma das limitações do presente estudo é que não foram realizadas análises considerando a localização da lesão, o que poderia ter proporcionado visões mais detalhadas sobre o perfil cognitivo da amostra. Adicionalmente, o estudo não avaliou a extensão da lesão e de que forma ela poderia contribuir para o grau de comprometimento cognitivo. O desenho transversal também limita a compreensão sobre a trajetória da recuperação ou deterioração cognitiva ao longo do tempo, uma vez que há estudos que relatam piora de curto prazo pós-neurocirurgia com melhora progressiva posterior (Kirkman et al., 2022; Tabor et al., 2021). Além disso, a ampla variabilidade etária e educacional da amostra pode ter influenciado o desempenho cognitivo observado, embora análises estatísticas estratificadas e correlacionais tenham sido realizadas para investigar parcialmente o efeito dessas variáveis. Invariavelmente, espera-se que os resultados aqui apresentados contribuam para futuras pesquisas que contemplem esses fatores.

Conclusão

Pacientes com LEA que utilizam o sistema público de saúde no Brasil frequentemente não têm acesso a avaliações neuropsicológicas, o que impede a caracterização de seus déficits cognitivos e o tratamento subsequente.

Este estudo teve como objetivo utilizar a Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC) com pacientes que haviam passado por neurocirurgia após um diagnóstico de Lesão Encefálica Adquirida (LEA), com a meta de analisar o perfil cognitivo dessa amostra e avaliar a viabilidade deste instrumento neste contexto.

A BBRC é um instrumento de triagem rápida, que demonstrou boa viabilidade no contexto ambulatorial pós-neurocirurgia, e conseguiu demonstrar diferenças cognitivas entre o grupo clínico e o grupo controle. Essa ferramenta pode ser facilmente utilizada em consultas ambulatoriais por profissionais de saúde, oferecendo benefícios significativos para essa população.

Estudos futuros devem investigar de forma mais aprofundada as propriedades psicométricas da BBRC, incluindo medidas de acurácia, sensibilidade e validade em contextos hospitalares e ambulatoriais envolvendo pacientes com LEA

Espera-se que os resultados aqui apresentados contribuam para futuras pesquisas sobre a cognição de pacientes com LEA, visando uma compreensão mais profunda e o desenvolvimento de terapias adaptadas à sua condição.

Financiamento

Não foi recebido financiamento para a realização da pesquisa, autoria e/ou publicação deste artigo.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflitos de interesse comerciais, financeiros ou pessoais relacionados à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.

Uso de inteligência artificial

Não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial na redação, análise, interpretação ou revisão deste artigo.

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Aspects cognitifs postopératoires dans les lésions cérébrales acquises : faisabilité de la Batterie brève de dépistage cognitif

Résumé

Les lésions cérébrales acquises (LCA) provoquent des déficits cognitifs significatifs qui affectent la qualité de vie et la récupération fonctionnelle des patients. L’évaluation cognitive postopératoire est souvent négligée, en particulier dans les pays en développement. Cette étude visait à décrire le profil neuropsychologique de patients atteints de LCA après une intervention chirurgicale et à évaluer la faisabilité clinique de la Batterie brève de dépistage cognitif (BBDC) lors de consultations ambulatoires. Au total, 80 participants, dont 48 patients atteints de LCA et 32 témoins, ont été évalués dans un service ambulatoire de neurochirurgie. Les participants ont réalisé le Mini-Examen de l’état mental (MMSE) et la BBDC, qui comprend le Test de l’horloge (TH), le Test de fluence verbale (TFV) et le Test de mémoire des figures (TMF). Des analyses descriptives et inférentielles ont été réalisées, notamment le test U de Mann-Whitney et des corrélations de Spearman. L’échantillon a été stratifié selon l’âge, le niveau d’instruction et le diagnostic, notamment les lésions cérébrovasculaires, les traumatismes cranio-encéphaliques et les tumeurs cérébrales. Les patients atteints de LCA ont présenté des performances cognitives significativement inférieures à celles des témoins, avec des déficits dans six des huit sous-tests de la BBDC ainsi qu’au MMSE. Les altérations les plus importantes ont été observées dans la mémoire épisodique (TMF) et dans les fonctions exécutives et visuospatiales (TH). La dénomination et la fluence verbale se sont maintenues dans la moyenne, ce qui suggère une préservation partielle des fonctions langagières. L’âge était négativement corrélé aux scores du MMSE et du TMF, tandis que le niveau d’instruction était positivement corrélé aux scores du MMSE et du TH. Aucune association significative n’a été observée entre les plaintes subjectives de mémoire et les performances cognitives, à l’exception du test de fluence verbale. Les patients atteints de LCA ont présenté des déficits cognitifs dans plusieurs domaines, en particulier la mémoire et les fonctions exécutives. La BBDC s’est révélée être un outil viable pour le dépistage cognitif en consultation ambulatoire. L’étude souligne l’importance des évaluations cognitives après une intervention neurochirurgicale et suggère l’intégration de programmes de réhabilitation cognitive dans la pratique clinique pour les patients atteints de LCA.

Mots-clés: Lésions cérébrales acquises. Évaluation neuropsychologique. Cognition. Batterie brève de dépistage cognitif. Neurochirurgie.

Post-surgical cognitive aspects in acquired brain injury: feasibility of the Brief Cognitive Screening Battery

Abstract

Acquired brain injuries (ABI) cause significant cognitive deficits, affecting patients’ quality of life and functional recovery. Post-surgical cognitive assessment is often neglected, particularly in developing countries. This study aimed to describe the neuropsychological profile of patients with ABI after surgery and evaluate the clinical feasibility of the Brief Cognitive Screening Battery (BBRC) in outpatient consultations. A total of 80 participants, including 48 patients with ABI and 32 controls, were assessed at a neurosurgery outpatient clinic. Participants completed the Mini-Mental State Examination (MMSE) and the BBRC, which includes the Clock Drawing Test (CDT), the Verbal Fluency Test (VFT), and the Figure Memory Test (FMT). Descriptive and inferential analyses were conducted, including the Mann-Whitney U test and Spearman correlations. The sample was stratified by age, educational level, and diagnosis, including cerebrovascular lesions, traumatic brain injury, and brain tumors. Patients with ABI exhibited significantly lower cognitive performance than controls, with deficits in six of the eight BBRC subtests and in the MMSE. The most pronounced impairments were observed in episodic memory (FMT) and executive and visuospatial functions (CDT). Naming and verbal fluency remained within the average range, suggesting partial preservation of language functions. Age was negatively correlated with MMSE and FMT scores, whereas educational level was positively correlated with MMSE and CDT scores. No significant associations were found between subjective memory complaints and cognitive performance, except on the verbal fluency test. Patients with ABI showed cognitive deficits across multiple domains, particularly memory and executive functions. The BBRC proved to be a feasible tool for cognitive screening in outpatient settings. The study highlights the importance of cognitive assessments after neurosurgery and suggests the inclusion of cognitive rehabilitation programs in clinical practice for patients with ABI.

Keywords: Acquired brain injury. Neuropsychological assessment. Cognition. Brief cognitive screening battery. Neurosurgery.

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