Original

Vol. 18 Núm. 1 (2026)

59 min

Perfil e autopercepção de alterações neuropsicológicas em pacientes neurológicos de um hospital geral

Perfil y autopercepción de alteraciones neuropsicológicas en pacientes neurológicos de un hospital general

Amábille das Neves Inacio1*, Fernanda Machado Lopes2, Fernanda Mary Gomes Rodrigues da Silva3, Rachel Schlindwein4
1 Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.
2 Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.
3 Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, São Paulo, Brasil.
4 Núcleo de Neuropsicologia e Saúde, Programa de Residência Multiprofissional e Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.
https://doi.org/10.5579/rnl.v18.n1.004
Publicación:
06/07/2026


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Resumen (PT)

Esta pesquisa investigou a condição neuropsicológica e a autopercepção de alterações neuropsicológicas em pacientes neurológicos internados em um hospital geral. Utilizou-se uma abordagem quantitativa, descritiva, exploratória e de corte transversal. A coleta de dados foi realizada com 30 participantes adultos e idosos, dos quais 18 eram mulheres, com média de idade de 55,4 anos. Os instrumentos utilizados foram um questionário sociodemográfico e clínico, o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) e o Inventário de Alterações Neuropsicológicas para Adultos (NEUROPSIC-R), além da consulta complementar aos prontuários dos pacientes. Os resultados indicaram uma variedade de diagnósticos neurológicos, com maior frequência de doenças cerebrovasculares. Observou-se a influência da escolaridade nos escores do MEEM. Quanto à autopercepção de alterações neuropsicológicas, as alterações relacionadas à independência e à funcionalidade, à atividade motora e à labilidade emocional, com tendência ao humor deprimido, constituíram as principais queixas relatadas. Embora os achados não tenham indicado correlação direta entre os escores totais dos dois instrumentos (MEEM e NEUROPSIC-R), vários subcomponentes apresentaram relações estatisticamente significativas. Na análise descritiva, a maior parte da amostra apresentou congruência entre os escores dos dois instrumentos. Os resultados também permitiram inferir que a discrepância entre o desempenho objetivo e as queixas subjetivas (autorrelato), presente em parte da amostra, está associada a múltiplos fatores, sejam eles neurobiológicos, psicológicos ou contextuais.

Palabras clave (PT):

autoimagem
doenças do sistema nervoso central
psicologia hospitalar
cognição
neuropsicologia

Resumen (ES)

Esta investigación analizó la condición neuropsicológica y la autopercepción de alteraciones neuropsicológicas en pacientes neurológicos hospitalizados en un hospital general. Se utilizó un enfoque cuantitativo, descriptivo, exploratorio y de corte transversal. La recolección de datos se realizó con 30 participantes adultos y adultos mayores, de los cuales 18 eran mujeres, con una edad media de 55,4 años. Los instrumentos utilizados fueron un cuestionario sociodemográfico y clínico, el Mini-Examen del Estado Mental (MEEM) y el Inventario de Alteraciones Neuropsicológicas para Adultos (NEUROPSIC-R), además de la consulta complementaria de las historias clínicas de los pacientes. Los resultados indicaron una variedad de diagnósticos neurológicos, con una mayor frecuencia de enfermedades cerebrovasculares. Se observó la influencia de la escolaridad en las puntuaciones del MEEM. En cuanto a la autopercepción de alteraciones neuropsicológicas, las alteraciones relacionadas con la independencia y la funcionalidad, la actividad motora y la labilidad emocional, con tendencia al estado de ánimo deprimido, constituyeron las principales quejas referidas. Aunque los hallazgos no indicaron una correlación directa entre las puntuaciones totales de los dos instrumentos (MEEM y NEUROPSIC-R), varios subcomponentes mostraron relaciones estadísticamente significativas. En el análisis descriptivo, la mayor parte de la muestra presentó congruencia entre las puntuaciones de ambos instrumentos. Los resultados también permitieron inferir que la discrepancia entre el desempeño objetivo y las quejas subjetivas (autoinforme), presente en parte de la muestra, está vinculada a múltiples factores, ya sean neurobiológicos, psicológicos o contextuales.

Palabras clave (ES):

autoimagen
enfermedades del sistema nervioso central
psicología hospitalaria
cognición
neuropsicología

Introdução

A neuropsicologia é uma ciência interdisciplinar que se dedica ao estudo das correlações existentes entre o cérebro e o comportamento humano (Kolb & Whishaw, 2021; Lezak et al., 2012; Mader-Joaquim, 2018; Merlin, 2017; Miotto, 2018; Schlindwein, 2016). Ao se considerar a prática neuropsicológica, que envolve uma pluralidade de objetivos, a avaliação neuropsicológica constitui uma etapa inicial e fundamental ao longo do processo de intervenção com o paciente. Essa avaliação tem como principal objetivo identificar os prejuízos cognitivos, emocionais, comportamentais e sociais decorrentes de doenças que afetam o sistema nervoso central (SNC) de um indivíduo (Camargo et al., 2014).

No contexto hospitalar, o neuropsicólogo exerce, especialmente, funções relacionadas à avaliação e à reabilitação neuropsicológica. A partir do processo de avaliação e das reavaliações necessárias ao longo do tratamento, considerando-se o desenvolvimento cerebral, as lesões neurológicas, as habilidades cognitivas e suas implicações para o comportamento, a qualidade de vida e as possibilidades de prognóstico, é possível mensurar os prejuízos cognitivos; contribuir para a investigação diagnóstica de forma multidisciplinar; orientar os cuidadores; e estabelecer um plano de reabilitação mais condizente com as necessidades do paciente, com o objetivo de promover uma intervenção precoce (Schlindwein, 2016).

O exercício da neuropsicologia hospitalar ainda representa um desafio, por se tratar de uma ciência complexa e em desenvolvimento, que se desdobra em um setting permeado por singularidades, como o espaço físico e a privacidade limitados, a imprevisibilidade, as interferências ocasionadas pela equipe ou pelos familiares, a própria fragilidade da condição de saúde do paciente e a grande demanda por atendimentos. Essas singularidades geram continuamente tensionamentos e pressões próprios de um contexto em que a linha entre a vida e a morte é tênue e no qual as vivências são intensificadas pelo processo de adoecimento (Schlindwein, 2016).

Nessa direção, a investigação neuropsicológica no hospital muitas vezes se configura como uma avaliação breve, na qual se busca mapear indícios de alterações neuropsicológicas por meio de baterias breves ou testes de rastreio (Mader-Joaquim, 2018). Destaca-se que as técnicas de rastreio, ou screening, das funções mentais constituem formas estruturadas de realização do exame do estado mental e podem ser utilizadas como etapa inicial de avaliações e reavaliações posteriores mais aprofundadas. São, portanto, recursos importantes para os processos avaliativos e interventivos (Malloy-Diniz, 2016).

Entre os mais variados quadros patológicos que repercutem no SNC, encontram-se as doenças neurológicas. Conceitualmente, um distúrbio neurológico é definido como uma patologia que afeta o cérebro, podendo também comprometer a medula espinhal e os nervos. Entre os principais grupos, mencionam-se os transtornos do neurodesenvolvimento, como a deficiência intelectual e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade; as doenças desmielinizantes, como a esclerose múltipla; as doenças cerebrovasculares, como o acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico; as doenças neuroinfecciosas, como a meningite; as doenças neuroinflamatórias, como a polirradiculoneurite; as doenças neurodegenerativas, como as doenças de Alzheimer e de Parkinson; os tumores; os traumatismos cranioencefálicos ou da medula espinhal; e as epilepsias (Martins et al., 2019).

Quanto ao aspecto epidemiológico, as doenças neurológicas ocupam lugar de destaque, tendo em vista a gravidade dos casos, os impactos e as sequelas por elas gerados, além da elevada taxa de mortalidade. A World Federation of Neurology (WFN, 2021) aponta que os distúrbios neurológicos constituem a segunda principal causa de mortalidade no mundo e que 70% da carga dessas doenças incide em países de baixa e média renda. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) busca garantir aos pacientes com doenças neurológicas o acesso aos serviços tanto no nível da atenção básica, considerada a porta de entrada, quanto no da atenção especializada, que envolve os níveis ambulatorial e hospitalar (Ministério da Saúde, 2020). Em relação às políticas públicas voltadas às pessoas com doenças neurológicas, é importante mencionar a Portaria nº 1.161, de 7 de julho de 2005, que institui a Política Nacional de Atenção ao Portador de Doença Neurológica (Brasil, 2005), e o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), desenvolvido pelo Ministério da Saúde (2011), que inclui estratégias direcionadas ao suporte de pacientes com acidente vascular encefálico (AVE).

Além dos danos estruturais e funcionais, as doenças neurológicas podem desencadear uma série de manifestações neuropsicológicas nos âmbitos da cognição, da emoção e do comportamento, a depender do quadro patológico (Kolb & Whishaw, 2021; Lezak et al., 2012; Prado et al., 2018), como alterações na orientação espacial e temporal, na atenção e na concentração, no humor, na memória, no planejamento, na compreensão e na expressão verbal, no controle inibitório, na autonomia e nas funções motoras (Schlindwein et al., 2023). Ademais, considera-se que os quadros neurológicos provocam impactos biopsicossociais na vida do paciente, impondo limitações e causando prejuízos à sua funcionalidade nas atividades da vida diária. Por sua vez, a percepção desses impactos pode se intensificar em momentos de crise, como durante a hospitalização. Esta ocorre em situações agudas, que podem despertar no paciente e em seus familiares as mais diversas reações psicológicas, como ansiedade, impotência, medo, tristeza, raiva, evitação e incerteza. Ainda assim, é possível que essas experiências adquiram novos significados e se configurem como oportunidades para o desenvolvimento de recursos de enfrentamento mais adaptativos diante do processo de adoecimento. Nesse sentido, a neuropsicologia pode oferecer suporte ao paciente tanto durante o período de internação quanto após a alta hospitalar (Camargo et al., 2014).

Na investigação neuropsicológica, além de avaliar a condição neuropsicológica do indivíduo por meio de instrumentos objetivos, também é relevante identificar a autopercepção de sua condição por meio de medidas subjetivas de autorrelato, de modo a integrar essas informações (Lezak et al., 2012). Entende-se por autopercepção o conhecimento que o indivíduo tem de si mesmo, construído a partir de elementos afetivos e sociais, de suas habilidades, competências e dificuldades (Tavernard et al., 2023). Esse conceito relaciona-se à metacognição, que consiste em um processo cognitivo de reflexão, monitoramento e controle das próprias funções cognitivas (Katyal & Fleming, 2024). A avaliação da autopercepção permite identificar discrepâncias entre medidas objetivas e subjetivas e contribuir para o aperfeiçoamento desses instrumentos. Além disso, apresenta relevância clínica, considerando as repercussões da autopercepção tanto na convivência cotidiana do paciente com as dificuldades decorrentes das doenças neurológicas quanto na adesão ao tratamento (Fuentes et al., 2014; Lezak et al., 2012; Malloy-Diniz et al., 2018).

Desse modo, compreende-se a pesquisa como uma via valiosa para o avanço da neuropsicologia como ciência, constituindo um campo de amplas potencialidades. Nesse âmbito, a investigação neuropsicológica pode elucidar padrões presentes em determinadas condições, ampliando a compreensão do perfil neuropsicológico e favorecendo um direcionamento mais adequado das intervenções nos quadros estudados (Merlin & Merlin, 2018). Vale destacar, ainda, que a predominância de estudos voltados às medidas objetivas de desempenho, em contraste com a escassez de investigações focadas na autopercepção e em medidas subjetivas na avaliação neuropsicológica (Fuentes et al., 2014; Lezak et al., 2012; Malloy-Diniz et al., 2018), configura uma lacuna na literatura e reforça a necessidade de ampliar a produção científica sobre essa temática.

Diante do exposto, este estudo teve como objetivo avaliar a condição neuropsicológica e a autopercepção de alterações neuropsicológicas em pacientes neurológicos internados em um hospital geral. Especificamente, buscou-se identificar o perfil sociodemográfico e clínico e avaliar o estado cognitivo desses pacientes; verificar sua autopercepção acerca da própria condição neuropsicológica; e investigar a relação entre a condição neuropsicológica e a autopercepção dos pacientes sobre essa condição.

Método

Delineamento

Trata-se de um estudo de abordagem quantitativa, descritiva, exploratória e de corte transversal.

Contextualização do campo

O estudo foi realizado em um hospital universitário federal que atende exclusivamente usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) em diversas especialidades, entre elas a neurologia. A equipe de neurologia é composta por médicos neurologistas, clínicos e neurocirurgiões, e por uma neuropsicóloga, que realizam atendimentos tanto ambulatoriais quanto a pacientes internados.

Participantes

Os participantes da pesquisa foram 30 pacientes neurológicos adultos e idosos internados em um hospital universitário federal. A amostra foi selecionada de forma não probabilística e por conveniência. Destaca-se que esse foi o número de participantes possível, considerando o fluxo de pacientes sob os cuidados da equipe de neurologia durante o período da pesquisa, bem como as alterações ocorridas no contexto estudado em decorrência da pandemia de COVID-19.

Os critérios de inclusão foram: a) ser paciente neurológico minimamente lúcido, orientado e comunicativo; b) ter mais de 18 anos; c) ser de qualquer sexo; d) estar internado no hospital universitário federal em que a pesquisa foi realizada; e) estar sob os cuidados da equipe de neurologia da instituição, em leitos das unidades de clínica médica, clínica cirúrgica ou emergência. Os critérios de exclusão foram: a) o motivo da internação não estar relacionado ao quadro neurológico, como nos casos em que o paciente apresentava histórico de doença neurológica, mas estava internado por outro motivo; b) apresentar comprometimento cognitivo que impossibilitasse a interação mínima necessária para responder aos instrumentos. No caso dos participantes com limitações motoras que impediam a escrita, incluindo aqueles com acesso venoso ou em uso de soro, o examinador auxiliou no registro das respostas no formulário.

Instrumentos

Os instrumentos utilizados na coleta de dados consistiram em um questionário sociodemográfico e clínico; o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM, 1ª versão) (Folstein et al., 1975); o Inventário de Alterações Neuropsicológicas para Adultos (NEUROPSIC-R) (Schlindwein & Cruz, 2019; Schlindwein et al., 2023); e a consulta ao prontuário do paciente.

O questionário sociodemográfico e clínico consiste em um instrumento semiestruturado elaborado pela equipe de pesquisa, com o objetivo de reunir dados relevantes sobre o perfil sociodemográfico e clínico dos participantes. O instrumento foi composto por 10 itens, que abordavam fatores como idade, sexo, escolaridade, estado civil, profissão, diagnóstico de doença neurológica, comorbidades, motivo da internação e histórico de internações e de eventos estressores. A aplicação foi conduzida por uma profissional, psicóloga residente sob orientação da neuropsicóloga preceptora do hospital, com duração aproximada de 5 a 10 min.

O Mini-Exame do Estado Mental (MEEM, 1ª versão) (Folstein et al., 1975) consiste em um instrumento de rastreio cognitivo criado com o objetivo de avaliar brevemente as funções cognitivas. A pontuação máxima é de 30 pontos, com base em itens dicotômicos. Os itens são divididos em duas etapas. A primeira totaliza 21 pontos, correspondentes às áreas de orientação, com cinco pontos para orientação temporal e cinco pontos para orientação espacial; memória, com três pontos para registro e três pontos para evocação; e atenção e cálculo, com cinco pontos. A segunda etapa totaliza nove pontos, correspondentes à área de linguagem: dois pontos para nomeação, um ponto para repetição, três pontos para seguir comandos, um ponto para leitura, um ponto para escrita e um ponto para cópia. Segundo a recomendação dos autores, o ponto de corte para déficit cognitivo é de 24 pontos. A aplicação é conduzida por um profissional e tem duração aproximada de 5 a 10 min (Folstein et al., 1975).

Nesta pesquisa, foi utilizada uma versão traduzida e adaptada para o Brasil por Bertolucci et al. (1994), que segue as instruções do instrumento original, mas apresenta pequenas modificações, principalmente quanto aos pontos de corte. Nessa versão, os autores constataram que o nível de escolaridade é um preditor do desempenho no instrumento e sugeriram adequações nos pontos de corte: 13 pontos para pessoas analfabetas, 18 pontos para pessoas com baixa e média escolaridade e 26 pontos para pessoas com alta escolaridade. Entretanto, optou-se por utilizar os pontos de corte propostos por Brucki et al. (2003), que consideram os dois estudos anteriores, mas se baseiam em um estudo mais recente: 20 pontos para pessoas analfabetas; 25 pontos para pessoas com 1 a 4 anos de escolaridade; 26,5 pontos para aquelas com 5 a 8 anos; 28 pontos para aquelas com 9 a 11 anos; e 29 pontos para indivíduos com mais de 11 anos de escolaridade.

O Inventário de Alterações Neuropsicológicas para Adultos (NEUROPSIC-R) (Schlindwein & Cruz, 2019) consiste em um instrumento brasileiro que tem como objetivo auxiliar o profissional no mapeamento, ainda que de forma breve, das alterações neuropsicológicas autopercebidas pelo paciente. É composto por 19 itens com quatro alternativas, a, b, c e d, sendo que “a” e “b” equivalem a 0 pontos, e “c” e “d”, a 1 ponto. Os itens abordam as áreas de concentração, irritabilidade, atenção, tomada de decisão, memória visual, memória de curto e longo prazo, sono, planejamento, oscilação de humor, independência, orientação espacial e temporal, destreza manual, compreensão verbal, expressão verbal, escrita, raciocínio lógico e impulsividade.

O instrumento é autoaplicável, e o paciente é orientado a assinalar uma das alternativas que melhor descreve como tem se sentido nas últimas semanas. O preenchimento dura, em média, de 5 a 10 min. O profissional pode optar por ler os itens para o paciente, caso considere necessário (Schlindwein et al., 2023). A pontuação é obtida por soma simples. Atualmente, algumas enfermidades apresentam ponto de corte de 9 pontos, como as doenças neuromusculares, por exemplo, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica e doença de Charcot-Marie-Tooth; as condições cognitivas, como demência e transtorno cognitivo; além da epilepsia. Em estudo recente, Schlindwein et al. (2023) demonstraram que o NEUROPSIC-R é uma ferramenta aplicável e útil para o rastreio neuropsicológico para fins clínicos e de pesquisa, com índice de consistência interna geral de 0,93, medido pelo alfa de Cronbach.

Procedimentos

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob o parecer nº 2.572.293.

A coleta de dados ocorreu entre junho e outubro de 2020. Inicialmente, foi realizado contato com a neuropsicóloga da equipe de neurologia, que, após o rastreio, indicou os pacientes neurológicos internados em um hospital federal que atendiam aos critérios de inclusão da pesquisa. Posteriormente, esses pacientes foram abordados e convidados a participar do estudo mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Em seguida, foram aplicados os instrumentos de coleta de dados, na seguinte ordem: questionário sociodemográfico e clínico; Mini-Exame do Estado Mental (MEEM); Inventário de Alterações Neuropsicológicas para Adultos (NEUROPSIC-R); e, por fim, consulta complementar ao prontuário do paciente. A administração dos instrumentos foi conduzida pela psicóloga residente, sob a orientação da neuropsicóloga preceptora do hospital, individualmente e à beira do leito, com duração aproximada de 30 a 60 min.

Análise dos dados

Foram utilizadas medidas descritivas e frequências para apresentar o perfil sociodemográfico e clínico dos pacientes, bem como o estado cognitivo e a autopercepção das alterações neuropsicológicas. Para correlacionar o perfil sociodemográfico e clínico com a condição cognitiva e a autopercepção neuropsicológica dos pacientes neurológicos, utilizou-se o teste de correlação de Pearson, considerando que os dados apresentaram distribuição normal, conforme o teste de Kolmogorov-Smirnov (p > 0,05). Em todas as análises, adotou-se um nível de significância de 5%. Foi utilizado o pacote estatístico SPSS, versão 21.

Resultados

Participaram da pesquisa 30 pacientes neurológicos internados em um hospital geral entre junho e outubro de 2020. Vale destacar que, durante a coleta de dados, a maior parte dos participantes apresentou lentificação do pensamento (bradipsiquismo) e, por vezes, sinais de fadiga, o que resultou em um tempo de coleta superior ao inicialmente previsto para cada participante.

Em relação ao perfil sociodemográfico e clínico, verificou-se que a média de idade dos participantes foi de 55,4 anos, com idade mínima de 17 anos e máxima de 88 anos. Destes, 18 eram do sexo feminino e 12, do sexo masculino. Além disso, quanto à escolaridade, 50% da amostra possuía de 1 a 8 anos de estudo, e 50%, mais de 9 anos de estudo. Os dados sociodemográficos e clínicos são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1. Dados sociodemográficos e clínicos dos participante.
PIdade (anos)SexoEscolaridadeEstado CivilDiagnósticoComorbidadeEvento Estressor
142F5 a 8SolteiraDoença neuroinfecciosa/neuroinflamatóriaNenhumaNenhum
256M11+SolteiroDoença desmielinizanteNenhumaPandemia
371F1 a 4CasadaDoença cerebrovascularAmbosOutros
464F1 a 4ViúvaOutrosAmbosPerda de familiar
564M1 a 4CasadoDoença neuroinfecciosa/neuroinflamatóriaNenhumaConflito familiar
669F9 a 11SolteiraOutrosCondições médicasPerda de familiar
762F11+CasadaDoença cerebrovascularAmbosOutros
861F9 a 11Separada e/ou divorciadaDoença desmielinizanteAmbosConflito familiar
988F1 a 4ViúvaDoença cerebrovascularCondições médicasNenhum
1041F9 a 11ViúvaDoença neuroinfecciosa/neuroinflamatóriaAmbosOutros
1161M9 a 11Separado e/ou divorciadoDoença cerebrovascularCondições médicasNenhum
1282F1 a 4CasadaNeoplasia SNCCondições médicasPandemia
1346F11+SolteiraCrise convulsiva/epilepsiaAmbosPerda de familiar
1454M11+CasadoDoença desmielinizanteTranstornos mentaisOutros
1557M5 a 8CasadoDoença cerebrovascularCondições médicasNenhum
1631F11+SolteiraNeoplasia SNCTranstornos mentaisMúltiplos estressores
1728M9 a 11SolteiroDoença desmielinizanteNenhumaPerda de familiar
1865M1 a 4CasadoDoença neuroinfecciosa/neuroinflamatóriaCondições médicasNenhum
1952M9 a 11Separado e/ou divorciadoCrise convulsiva/epilepsiaAmbosNenhum
2075F1 a 4ViúvaDoença cerebrovascularCondições médicasMúltiplos estressores
2124M5 a 8SolteiroCrise convulsiva/epilepsiaTranstornos mentaisNenhum
2281F1 a 4CasadaDoença cerebrovascularCondições médicasOutros
2341F5 a 8CasadaOutrosCondições médicasNenhum
2429F9 a 11Separada e/ou divorciadaDoença desmielinizanteTranstornos mentaisConflito familiar
2542F9 a 11ViúvaDoença desmielinizanteAmbosConflito familiar
2669F1 a 4ViúvaOutrosCondições médicasNenhum
2764M5 a 8SolteiroDoença cerebrovascularTranstornos mentaisNenhum
2817M9 a 11SolteiroDoença desmielinizanteNenhumaMúltiplos estressores
2957F11+CasadaNeoplasia SNCTranstornos mentaisOutros
3069M5 a 8CasadoDoença cerebrovascularCondições médicasNenhum
Fonte: Elaborado pelas autoras (2021). Legenda: P = Participante; M = Masculino; F = Feminino; Escolaridade em anos de estudo.

No que se refere à profissão, a amostra mostrou-se heterogênea quanto ao tipo de atividade laboral, sendo que 12 participantes eram profissionalmente ativos, e 18 estavam afastados, aposentados ou eram pensionistas. As profissões referidas pelos pacientes foram auxiliar de peixaria, professor de educação física, camareira, costureira, auxiliar de impressão em gráfica, advogado, artesão/escritor, lavadeira, vigilante, motorista, atendente de enfermagem, analista de sistemas, representante comercial, biólogo, agricultor, pedreiro/carpinteiro, pedagogo, gráfico, profissional do lar e estudante. Em se tratando do diagnóstico, 16 pacientes apresentavam uma hipótese diagnóstica e 14 pacientes já possuíam um diagnóstico fechado de doença neurológica. Os diagnósticos apresentados foram agrupados considerando a literatura, incluindo aspectos psicométricos do NEUROPSIC-R citados em Schlindwein et al. (2023), Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e na experiência da equipe de pesquisa, de modo que facilitasse a compreensão do leitor. Os diagnósticos foram agrupados em doença cerebrovascular (nove pacientes): acidente vascular cerebral/encefálico isquêmico (AVCi/AVEi) e acidente vascular cerebral/encefálico hemorrágico (AVCh/AVEh); doença desmielinizante (sete pacientes): esclerose lateral amiotrófica (ELA), esclerose lateral amiotrófica bulbar (ELA bulbar), esclerose múltipla (EM), neuromielite óptica (NMO) e mielite transversa (MT); doença neuroinfecciosa ou neuroinflamatória (quatro pacientes): romboencefalite (RE), doença de Creutzfeldt-Jacob (DCJ), neurossífilis e síndrome de Guillain-Barré (SGB); crise convulsiva ou epilepsia (três pacientes): somente crise convulsiva, crise convulsiva/sangramento intraparenquimatoso e epilepsia do lobo mesial temporal (EMT); neoplasia do SNC (três pacientes); e outros (quatro pacientes): transtorno funcional, alteração de motricidade ocular, síndrome extrapiramidal e piramidal/síndrome tônico frontal/doença de depósito em gânglios de base e confusão mental.

Em relação ao agrupamento “crise convulsiva ou epilepsia”, a League Against Epilepsy (ILAE) explicada por Fischer et al. (2017) cita que a classificação das crises epilépticas ocorre de acordo com o início da crise em uma base anatômica, enquanto a classificação pelo nível de percepção tem uma base comportamental, justificada pela importância prática do comprometimento da percepção, sendo que ambos os métodos de classificação são disponíveis e podem ser usados concomitantemente. Nesse sentido, Schlindwein et. al. (2022) comentam que tal processo é muito complexo, especialmente nos idosos, pois os distúrbios cognitivos são comuns naqueles com epilepsia e sua etiologia multifacetada é influenciada pelo tipo e localização da lesão epileptogênica, síndrome epiléptica, tipo de convulsões, idade de início, efeito de drogas antiepilépticas, frequência, gravidade e estilo de vida; sendo que, os prejuízos cognitivos mais relevantes costumam estar relacionados à epilepsia focal, apesar de que certas alterações neuropsicológicas podem ser observadas na epilepsia generalizada idiopática.

Dos participantes, 25 apresentavam comorbidades, dos quais 11 possuíam exclusivamente comorbidades relacionadas a doenças orgânicas ou condições médicas, seis apresentavam comorbidades associadas a transtornos mentais, e oito apresentavam ambos os tipos de comorbidade. Entre as doenças orgânicas, as comorbidades mais frequentes foram hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes mellitus tipo 2 (DM2). No que se refere aos transtornos mentais, depressão e ansiedade foram as comorbidades mais prevalentes. Quanto ao histórico de internações, 16 dos 30 participantes já haviam sido internados anteriormente. Em relação ao histórico de eventos estressores recentes, 11 participantes não relataram eventos estressores, oito relataram fatores estressores relacionados a perdas ou conflitos familiares, e dois mencionaram fatores estressores relacionados à pandemia.

Por meio da aplicação do MEEM, foi avaliado o estado mental dos participantes. A tabela 2 apresenta detalhadamente as pontuações em cada área do MEEM, bem como o escore total de cada paciente. Considerando a nota de corte de 24 pontos, proposta por Folstein et al. (1975), em um total de 30 pontos, 17 pacientes (56,6%) obtiveram pontuação igual ou superior a 24, e 13 (43,3%) obtiveram pontuação inferior a 24, sugerindo a possibilidade de déficit cognitivo. Considerando as notas de corte que levam em conta o nível de escolaridade, conforme proposto por Brucki et al. (2003) — 20 pontos para pessoas analfabetas; 25 pontos para pessoas com 1 a 4 anos de escolaridade; 26,5 pontos para aquelas com 5 a 8 anos; 28 pontos para aquelas com 9 a 11 anos; e 29 pontos para indivíduos com mais de 11 anos de escolaridade —, 16 participantes (53,3%) obtiveram pontuação inferior às notas de corte sugeridas pelos autores. Desse modo, mais da metade dos participantes apresentou desempenho sugestivo de déficit cognitivo, conforme exposto na Tabela 2.

Tabela 2. Pontuação dos participantes no MEEM.
MEEM (PONTUAÇÃO)
PO. TemporalO. EspacialM. ImediataAtenção e CálculoM. de EvocaçãoLinguagemEscore Total
155353930
225342824
355312521
445353828
535310820
655352929
745343625
832331820
933303618
1044301820
1114301615
1245301619
1355353930
1455353829
1555303723
1655052926
1744353827
1854303621
1955353930
2035313722
2155342827
221330029
2355352929
2455353728
2544353928
2612200510
270000033
2855352929
2945353828
3055352929
Fonte: Elaborado pelas autoras (2021) P = Participantes; O = Orientação; M = Memória.

Por meio da aplicação do NEUROPSIC-R, verificou-se a autopercepção dos pacientes, com base no autorrelato, acerca das alterações neuropsicológicas e comportamentais. Entre as funções abordadas, independência (n = 21; 70%), coordenação motora (n = 20; 66,7%), escrita e raciocínio lógico (n = 18; 60%) e oscilação de humor e humor deprimido (n = 17; 56%) foram percebidos como alterados por mais da metade dos pacientes. Por outro lado, a atenção foi percebida como alterada por apenas cinco participantes (16,7%).

A Figura 1 apresenta as funções neuropsicológicas avaliadas pelo instrumento, bem como o número de pacientes que perceberam essas funções como alteradas.

A Tabela 3 apresenta os participantes e seus respectivos níveis de escolaridade — todos haviam iniciado a escolarização formal, embora seis fossem analfabetos —; o escore total do MEEM; a indicação de possível déficit cognitivo, considerando as notas de corte do MEEM propostas por Brucki et al. (2003); o escore total do NEUROPSIC-R; e a indicação de percepção de alterações neuropsicológicas, considerando o ponto de corte de 9 pontos proposto pelos autores do instrumento. A última coluna indica se houve congruência entre o estado cognitivo avaliado pelo MEEM e a autopercepção das alterações neuropsicológicas mensuradas pelo NEUROPSIC-R. Dos 30 participantes, 18 apresentaram congruência entre os resultados dos dois instrumentos, e 12 apresentaram incongruência.

Figura 1. Funções neuropsicológicas autorrelatadas como alteradas pelos pacientes. Fonte: Elaborado pelas autoras (2021)
Figura 1. Funções neuropsicológicas autorrelatadas como alteradas pelos pacientes. Fonte: Elaborado pelas autoras (2021)
Tabela 3. Congruência entre estado cognitivo e autopercepção neuropsicológica.
PEscolaridadeEscore Total MEEMSugestivo de déficit cognitivob**Escore Total NEUROPSI-RPercepção de alterações neuropsicológicascCongruência entre estado cognitivo e autopercepção neuropsicológica
15 a 830Não2NãoSim
211+24Sim10SimSim
31 a 4a21Não9SimNão
41 a 428Não5NãoSim
51 a 420Sim16SimSim
69 a 1129Não0NãoSim
711+25Sim10SimSim
89 a 1120Sim18SimSim
91 a 4a18Sim11SimSim
109 a 1120Sim2NãoNão
119 a 1115Sim14SimSim
121 a 4a19Sim6NãoNão
1311+30Não9SimNão
1411+29Não2NãoSim
155 a 823Sim3NãoNão
1611+26Sim9SimSim
179 a 1127Sim1NãoNão
181 a 4a21Não4NãoSim
199 a 1130Não11SimNão
201 a 422Sim4NãoNão
215 a 827Não6NãoSim
221 a 4a9Sim11SimSim
235 a 829Não8NãoSim
249 a 1128Não9SimNão
259 a 1128Não9SimNão
261 a 4a10Sim14SimSim
275 a 83Sim8NãoNão
289 a 1129Não11SimNão
2911+28Sim18SimSim
305 a 829Não2NãoSim
Fonte: elaborado pelos autores (2021). a= participantes analfabetos. b= sendo “sim” para algum déficit e “não” para nenhum déficit cognitivo. c= sendo “sim” quando existe percepção de prejuízos nas funções abordadas pelo instrumento e “não” quando não há autorrelato destas alterações.

Discussão

A diversidade de doenças neurológicas, bem como a complexidade do processo de investigação destas, pode impactar em um tempo maior para definição dos diagnósticos. Isto se evidenciou na amostra estudada, já que durante a coleta de dados mais da metade dos participantes não receberam um diagnóstico fechado por parte da equipe médica, e sim uma hipótese diagnóstica. Para Schlindwein et al. (2019), a diversidade de diagnósticos se dá em função da amplitude do SNC e SNP (Sistema Nervoso Periférico), que se interligam a todos os órgãos do corpo. Ademais, a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) traz diagnósticos neurológicos presentes em mais de um agrupamento de doenças (por exemplo, Neurologia e Reumatologia, Neurologia e Transtornos Mentais).

Uma maior frequência de doenças cerebrovasculares e das comorbidades hipertensão e diabetes foram encontradas na amostra estudada. Além disso, mais da metade dos pacientes apresentava histórico de internações prévias. Esses achados vão ao encontro do estudo de Bacellar et al. (2017) com pacientes (idosos) neurológicos hospitalizados, em que se identificou os diagnósticos e comorbidades mais recorrentes neste grupo, constatando tempo prolongado de internações, índices mais elevados de reinternações, além de HAS e DM dentre as comorbidades mais frequentes. Dados da World Health Organization (WHO, 2020) apontam as doenças cardiovasculares (incluídas no grupo das DCNTs, além dos cânceres, doenças respiratórias crônicas e diabetes) como as principais causas de morte ao nível global, com a Doença Isquêmica do Coração ocupando a primeira posição e o Acidente Vascular Encefálico em segundo no ranking. Para o Ministério da Saúde, das DCNTs, as doenças do aparelho circulatório (DACs) são as principais causas de morbimortalidade no Brasil (31%), e das internações hospitalares, dentre elas o AVC e a HAS (considerada fator de risco e causa das demais DACs) (Brasil, 2011). Segundo a Rede Brasil AVC (2023), o AVC é a maior causa de óbitos no Brasil. A World Stroke Organization (WSO, 2022) destaca seu efeito devastador, sendo a segunda causa de morte no mundo, com 12,2 milhões de novos casos a cada ano, além de enfatizar que 101 milhões de pessoas no mundo convivem com os impactos e limitações da doença. Esses dados endossam a importância do estudo das doenças neurológicas, especialmente o AVC, como um problema de saúde pública.

Em relação às comorbidades relacionadas a transtornos mentais, depressão e ansiedade foram as mais frequentes. Byrne et al. (2017) também verificaram a presença destes quadros nos pacientes neurológicos. Além disso, as doenças psiquiátricas como a depressão e a ansiedade, quando em comorbidade, podem impactar na funcionalidade e na qualidade de vida dos indivíduos (Bayón & Sampedro, 2017). Outros estudos com diagnósticos neurológicos específicos também apontam para a presença de ansiedade e depressão como comorbidades frequentes, como no AVE (Cheng et al. 2018), na Esclerose Múltipla (Gay et al., 2017), na Esclerose Lateral Amiotrófica (Wei et al., 2016), na neuromielite óptica (Fernández et al., 2018), na Síndrome de Guillain-Barré (Hillyar & Niber, 2020), na epilepsia (Baker et al., 2019), nos tumores cerebrais (Gibson & Graber, 2020) e na doença de Parkinson (Schrag & Taddei, 2017).

No que se refere aos escores totais obtidos do MEEM, é importante discutir que a interpretação varia de acordo com a nota de corte utilizada. Para esta amostra, conforme já mencionado anteriormente, optou-se pela utilização dos pontos de corte por nível de escolaridade baseados em estudos para a população brasileira. Com isso, o fato de um pouco mais da metade da amostra ter apresentado desempenho sugestivo de algum declínio cognitivo pode estar relacionado à utilização de pontos de corte mais altos. Vale ressaltar que esse resultado condiz com as observações (aspecto qualitativo) realizadas no período de coleta dos dados, na qual a maior parte dos participantes se mostrou lentificada (bradipsiquismo) e por vezes fatigada, refletindo inclusive em um tempo de coleta maior que o esperado com cada participante. Esta lentificação das funções mentais pode ser justificada tanto pela condição neurológica quanto intensificada pelo fator da hospitalização, o que também explicaria o fato dos escores abaixo do esperado para nível de escolaridade no MEEM. Para Jonasson et al. (2018) a fadiga mental é um sintoma comum nos pacientes neurológicos, exigindo destes um esforço maior durante os processos de avaliação da cognição, e impactando na funcionalidade.

Os resultados também demonstraram correlação entre os escores do MEEM e o nível de escolaridade dos participantes, ou seja, melhor desempenho cognitivo nos participantes com mais anos de escolaridade, corroborando os estudos realizados por Bertolucci et al. (1994); Almeida (1998); Brucki et al. (2003); Lourenço e Veras (2006), e Argimon et al. (2012), que indicam a influência da escolaridade no desempenho neste instrumento. Além disso, verificou-se que os participantes mais velhos tinham menos anos de escolaridade. Esse achado vai ao encontro do estudo feito por Brigola et al. (2019), sobre o quanto ainda é comum os baixos níveis de escolarização em idosos de países em desenvolvimento (20% dos idosos no Brasil são analfabetos), associando esta variável ao declínio cognitivo e a impactos na funcionalidade desses indivíduos. Outro ponto a ser considerado é o fato de os seis participantes analfabetos possuírem algum histórico de educação formal, reforçando a complexidade da variável escolaridade, principalmente no que diz respeito à heterogeneidade da escolarização entre as populações e até mesmo entre as diferentes regiões de um país (Brucki et al., 2011), atrelada a diferentes demandas ambientais e bases socioculturais (Brucki & Nitrini, 2010). Mello e Barbosa (2015), em uma revisão sistemática, apontam as dificuldades que países em desenvolvimento (como o Brasil) encontram para padronização de instrumentos de avaliação cognitiva (principalmente nos itens que exigem algum nível de educação formal), em função de uma parcela significativa da população possuir poucos anos de estudo.

Ainda nas funções avaliadas pelo MEEM, um maior número de pacientes mostrou melhor desempenho em orientação espacial e memória imediata do que em orientação temporal, memória de evocação, cálculo e linguagem. Esses dados condizem com o estudo de Brucki et al. (2003), exceto na função de orientação temporal. Estas alterações podem estar relacionadas ao fator do adoecimento e intensificadas pela hospitalização, que constitui-se em um período de mudanças e perdas, impactando em estresse ao paciente. A hospitalização impõe ao paciente uma série de alterações em sua rotina (como alimentação, sono, dentre outros hábitos), sendo um espaço mais vulnerável para alterações psicológicas, sejam elas de cunho cognitivo, emocional ou comportamental (Silva & Azzi, 2018). É comum que pacientes neurológicos, neste caso hospitalizados, sejam em fases agudas ou crônicas, apresentem uma série de comprometimentos, como os déficits cognitivos (com alterações na memória, linguagem, atenção, confusão mental), déficits sensoriais e motores, que repercutem na funcionalidade (Gouveia & Gomes, 2018)

No NEUROPSIC-R os itens independência/autonomia, coordenação motora, escrita, raciocínio lógico, oscilação de humor e humor deprimido foram percebidos como alterados por mais da metade dos participantes. É possível que isto se deva ao fato de estes itens abordarem funções mais concretas e, portanto, mais facilmente perceptíveis aos participantes. Por outro lado, Spreij et al. (2019) referem que funções mais abstratas (como a atenção) podem ser de difícil compreensão para o paciente, isso explicaria o fato de uma parcela pequena da amostra ter apresentado alteração no item atenção. Além disso, a queixa de perda de independência/autonomia está intimamente ligada aos impactos e limitações gerados pelo adoecimento, alterando a funcionalidade, conforme discutido anteriormente. Esses achados também reafirmam a presença comum de manifestações neuropsicológicas nos quadros neurológicos (Kolb & Whishaw, 2021; Lezak et al., 2012; Prado et al., 2018).

Embora os resultados não apontem correlação entre os escores totais dos dois instrumentos (MEEM e NEUROPSIC-R), descritivamente (conforme Tabela 3) é possível inferir que houve congruência entre estado cognitivo e autopercepção neuropsicológica em 18 participantes (60% da amostra) e incongruência em 12 participantes (40%). A incongruência, isto é, a discrepância entre o desempenho objetivo e o autorrelato, é multifatorial, portanto pode ser explicada por um conjunto de fatores, tais como alterações na consciência ou autopercepção dos déficits (anosognosia), gerada pela própria doença neurológica; comprometimento na metacognição; fatores emocionais, como sintomas depressivos, ansiosos e de estresse; diferenças entre contexto de aplicação dos instrumentos e vida cotidiana; mecanismos psicológicos de defesa, como recurso de enfrentamento no adoecimento (p. ex. negação); além da influência de fatores sociodemográficos e culturais (Ferreira, 2020; Lezak et al., 2012; Malloy-Diniz et. al., 2018).

É possível que os participantes com algum déficit cognitivo não percebam alterações neuropsicológicas devido ao próprio déficit cognitivo, pois isso envolve metacognição, isto é, refletir e controlar funções cognitivas, como a percepção (Katyal & Fleming, 2024). Deste modo, se esta função está prejudicada, estes pacientes podem não "perceber" adequadamente as suas alterações neuropsicológicas, mesmo que elas ocorram, e isso explicaria a discrepância dos escores entre os instrumentos em 12 participantes da amostra. Duncan (2013) reporta o autorrelato como um modo de administração de instrumentos de avaliação importante, pois além de serem mais rápidos, têm como base a perspectiva do paciente. Porém, podem apresentar limitações em função dos prejuízos cognitivos e comunicacionais apresentados pelo próprio paciente neurológico. Em uma revisão sistemática, Ferreira (2020) concluiu que a maior parte dos estudos indicava falta de correlação entre comprometimento cognitivo em medidas objetivas e as queixas cognitivas subjetivas, e que esta discrepância pode ser influenciada fortemente por aspectos psicológicos do paciente, como a autoeficácia (percepção de capacidade de lidar com a sua condição de saúde), traços de personalidade prévios, representações cognitivas e emocionais sobre a doença e sintomas depressivos e ansiosos. Ou seja, as percepções do paciente podem variar não somente em função de aspectos orgânicos da doença, mas também pela forma (estilo) como o paciente enfrenta o adoecimento.

Nessa direção, Dauphinot et al. (2020) indicam que as relações entre queixas cognitivas subjetivas e alterações cerebrais ainda são nebulosas, entretanto concluíram em seu estudo uma forte relação entre queixas de memória e de funcionalidade para a vida diária e degeneração cerebral, isto é, as queixas cognitivas estavam relacionadas a achados orgânicos. Isto evidencia a complexidade e os múltiplos fatores que podem estar envolvidos nas relações entre queixas subjetivas (aquilo que o paciente refere de sintoma) e dados objetivos (sinais observados pelo profissional com ou sem o uso de instrumentos), reforçando o cuidado e a perícia necessária nos processos avaliativos.

Esta questão consiste em um desafio, uma possível lacuna do ponto de vista cognitivo, considerando que alguns indivíduos com quadros neurológicos decorrentes de prejuízos relacionados à própria condição teriam limitações no julgamento de sua autopercepção e na consequente adesão ao tratamento, como no caso de déficits em funções executivas. Inclusive, Rocha e Schlindwein (2022) referem que, no cenário das neurocirurgias, outro aspecto a se considerar é a importância da psicoeducação (apesar de frequentemente negligenciada) para pacientes e suas famílias na adesão ao tratamento clínico, bem como nos períodos pré e pós-cirúrgicos, uma vez que conduz à percepção de melhores resultados.

Inclusive, Kiselica et al (2024) alertam que a cognição e os distúrbios cognitivos não existem isoladamente, pois a disfunção cognitiva tem importantes consequências no mundo real. Sendo que, historicamente, a mensuração das habilidades no mundo real tem ocorrido de forma um tanto separada do desenvolvimento de medidas cognitivas e, cada vez mais, na última década, a TRI (Teoria de Resposta ao Item) tem sido usada para integrar medidas de cognição, biomarcadores, e função em compreensões coesas e precisas de estados de doença. E nesse sentido, os estudos com NEUROPSIC-R são de grande valia (Schlindwein et al., 2023).

Além disso, ainda que se observe a escassez de instrumentos que tenham como base as percepções do paciente, estes se constituem em ferramentas úteis e relevantes por permitirem ao avaliador explorar e captar, a partir da experiência subjetiva do indivíduo, as alterações neuropsicológicas, mesmo as mais sutis. Desse modo, torna-se fundamental que na investigação neuropsicológica se avaliem tanto o desempenho cognitivo quanto as queixas subjetivas (autorrelato), complementarmente, para uma compreensão integrada dos déficits e melhor elaboração dos planos de intervenção. (Byrne et al., 2017; Fuentes et al., 2014; Lezak et al. 2012; Malloy-Diniz et al., 2018; Spreij et al., 2019).

Considerações finais

Este estudo teve como objetivo avaliar a condição e autopercepção de alterações neuropsicológicas de pacientes neurológicos hospitalizados. Em relação aos dados sociodemográficos e clínicos, observou-se a diversidade e complexidade dos processos diagnósticos em neurologia. Em relação ao instrumento de medida cognitiva, verificou-se também a influência do nível de escolaridade na interpretação dos escores do MEEM, com resultados que sugerem a presença de algum comprometimento cognitivo no instrumento em um pouco mais da metade da amostra. Quanto à autopercepção neuropsicológica, funções mais concretas como independência e funcionalidade, atividade motora e labilidade emocional (com tendência ao humor deprimido) foram as principais queixas de alterações relatadas pelos pacientes.

Ademais, os dados não apontaram para correlação significativa entre desempenho cognitivo e autopercepção de alterações neuropsicológicas, embora descritivamente tenha se observado congruência entre os escores em maior parte da amostra (demonstrando certa correspondência entre os dois instrumentos). Ainda assim, com base na discussão, é possível inferir que uma queixa cognitiva não está necessariamente relacionada a alterações cognitivas objetivas (o mesmo ao contrário), e essa discrepância está atrelada a múltiplos fatores, sejam eles neurobiológicos, psicológicos e contextuais, potencializados pela hospitalização, além de se considerar as limitações dos instrumentos utilizados no processo de investigação neuropsicológica.

Desse modo, a presente pesquisa oferece subsídios para problematizar a prática da neuropsicologia no contexto hospitalar, principalmente em relação à avaliação dos pacientes neurológicos. Foi possível observar que instrumentos de autorrelato são recursos importantes e podem ser aliados no processo avaliativo, considerando-se que a autopercepção (mesmo que incongruente) do paciente acerca da sua condição é parte de um processo de reconhecimento do que este avalia como prejudicado, e ajudá-lo neste reconhecimento pode vir a facilitar e direcionar o processo de cuidado e adesão ao tratamento. Com isso, embora a hospitalização seja um período de tensionamentos, ela pode ser também um período oportuno para iniciar intervenções que preparem e engajem o paciente para o tratamento no pós-alta.

As limitações deste estudo relacionam-se, principalmente, ao delineamento transversal da pesquisa, que não possibilitou a análise da evolução da autopercepção das alterações neuropsicológicas dos participantes ao longo do tempo. Além disso, o tamanho reduzido da amostra constitui outra limitação, podendo restringir a generalização dos achados. Destaca-se ainda que dificuldades relacionadas às condições físicas e de comunicação dos pacientes, incluindo limitações motoras, configuraram um desafio relevante na condução da pesquisa. Esse aspecto é corroborado por Vieira et al. (2023), que ressaltam que a ausência de estratégias de comunicação eficazes entre pacientes, familiares e profissionais de saúde podem comprometer o tratamento, a acessibilidade e a qualidade de vida. Sugere-se a continuidade dos estudos com essa temática, ampliando a perspectiva acerca da condição de pacientes com doenças neurológicas. Além disso, sugerem-se estudos que acompanhem de forma longitudinal esses pacientes, através de avaliação e reavaliação das alterações neuropsicológicas, para melhor entendimento dos quadros apresentados. Estudos com delimitação por quadro neurológico (amostra homogênea) são relevantes, já que são diversos os diagnósticos, e consequentemente, doenças que cursam de formas distintas, necessitando de intervenções específicas. Outra possibilidade são pesquisas que tenham como foco a rede de apoio, considerando a importância desta rede no suporte ao tratamento do paciente neurológico, como por exemplo, um estudo no qual o cuidador também responda o NEUROPSIC-R para comparar a percepção deste com a autopercepção do paciente.

Por fim, é válido reforçar a relevância de políticas públicas que garantam o cuidado integral e em todas as etapas do tratamento dos pacientes neurológicos, com assistência multiprofissional, contribuindo para uma melhor funcionalidade e para o bem-estar biopsicossocial.

Financiamento

Não foi recebido financiamento para a realização da pesquisa, autoria e/ou publicação deste artigo.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflitos de interesse comerciais, financeiros ou pessoais relacionados à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.

Declaração ética

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob o parecer nº 2.572.293, e foi conduzido em conformidade com as normas éticas nacionais e internacionais aplicáveis à pesquisa com seres humanos. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes de sua inclusão no estudo.

Uso de inteligência artificial

Não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial na redação, análise, interpretação ou revisão deste artigo.

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Profil et auto-perception des altérations neuropsychologiques chez des patients neurologiques dans un hôpital général

Résumé

Cette recherche a étudié le profil neuropsychologique et l’autoperception des altérations neuropsychologiques chez des patients neurologiques hospitalisés dans un hôpital général. Une approche quantitative, descriptive, exploratoire et transversale a été utilisée. Les données ont été recueillies auprès de 30 adultes et personnes âgées, dont 18 femmes, avec un âge moyen de 55,4 ans. Les instruments utilisés étaient un questionnaire sociodémographique et clinique, le Mini-Examen de l’État mental (MMSE) et l’Inventaire des altérations neuropsychologiques pour adultes (NEUROPSIC-R), ainsi qu’une consultation complémentaire des dossiers médicaux des patients. Les résultats ont mis en évidence une variété de diagnostics neurologiques, les maladies cérébrovasculaires étant les plus fréquentes. Une influence du niveau de scolarité sur les scores du MMSE a été observée. Concernant l’autoperception des altérations neuropsychologiques, les altérations liées à l’indépendance et à l’autonomie fonctionnelle, à l’activité motrice et à la labilité émotionnelle, avec une tendance à l’humeur dépressive, constituaient les principales plaintes rapportées. Bien que les résultats n’aient pas indiqué de corrélation directe entre les scores totaux des deux instruments (MMSE et NEUROPSIC-R), plusieurs sous-composantes ont présenté des relations statistiquement significatives. Dans l’analyse descriptive, la majorité de l’échantillon a présenté une concordance entre les scores des deux instruments. Les résultats ont également permis d’inférer que l’écart entre la performance objective et les plaintes subjectives (autoévaluation), observé chez une partie de l’échantillon, est associé à de multiples facteurs neurobiologiques, psychologiques et contextuels.

Mots-clés: Psychologie hospitalière. Neuropsychologie. Cognition. Image de soi. Maladies du système nerveux central.

Profile and self-perception of neuropsychological changes in neurological patients at a general hospital

Abstract

This study investigated neuropsychological status and self-perception of neuropsychological changes in neurological patients admitted to a general hospital. A quantitative, descriptive, exploratory, cross-sectional approach was used. Data were collected from 30 adults and older adults, 18 of whom were women, with a mean age of 55.4 years. The instruments used were a sociodemographic and clinical questionnaire, the Mini-Mental State Examination (MMSE), and the Neuropsychological Changes Inventory for Adults (NEUROPSIC-R), in addition to a complementary review of the patients’ medical records. The results revealed a variety of neurological diagnoses, with cerebrovascular diseases being the most frequent. Educational level was found to influence MMSE scores. Regarding the self-perception of neuropsychological changes, changes related to independence and functionality, motor activity, and emotional lability, with a tendency toward depressed mood, were the main complaints reported. Although the findings did not indicate a direct correlation between the total scores of the two instruments (MMSE and NEUROPSIC-R), several subcomponents showed statistically significant relationships. In the descriptive analysis, most of the sample showed congruence between the scores of the two instruments. The results also suggested that the discrepancy between objective performance and subjective complaints (self-report), observed in part of the sample, is associated with multiple neurobiological, psychological, and contextual factors.

Keywords: Hospital psychology. Neuropsychology. Cognition. Self-concept. Central nervous system diseases.

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