Artículo original

Vigotsky y Neuropsicología en América Latina

48 min

Diálogos entre Vigotski, Luria e Holzkamp para uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global

Dialogues between Vygotsky, Luria, and Holzkamp for a Critical Neuropsychology of the Global South

Izabel Hazin1*, Laura Aragão1, Wagner Luiz Schmit Ishibashi2, Hansel Soto Hernández1, Heitor Graton Roman1
1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
2 Prefeitura de Ibiporã
Correspondencia:
Izabel Hazin
https://doi.org/10.5579/rnl.v18.n2.004
Recepción:
30/05/2026
Aceptación:
03/07/2026
Publicación:
07/09/2026

Cómo citar

Hazin I., Aragão L., Schmit Ishibashi W., Soto Hernández H., Graton Roman H. Diálogos entre Vigotski, Luria e Holzkamp para uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global. Index. 2026;18(2):36-47. Disponible en: https://doi.org/10.5579/rnl.v18.n2.004


Métricas


81

Visualizaciones


14

Descargas


Compartir

Compartir

Resumen (FR)

A psicologia e a neuropsicologia contemporâneas permanecem fortemente influenciadas por modelos explicativos que tendem a naturalizar os fenômenos psicológicos e a universalizar parâmetros produzidos em contextos socioculturais específicos. Na América Latina e em outros contextos do Sul Global, essa tendência frequentemente contribui para a reprodução de formas de colonialidade epistemológica, invisibilizando as condições históricas, culturais e sociais que participam da constituição da subjetividade. Neste contexto, o presente artigo examina as aproximações teóricas entre a Psicologia Histórico-Cultural de Lev S. Vigotski e Alexander R. Luria e a Psicologia Crítica de Klaus Holzkamp, tomando o Materialismo Histórico-Dialético como fundamento comum. O objetivo é discutir como o diálogo entre essas tradições pode contribuir para a formulação de uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global. Inicialmente, são analisados os pressupostos ontológicos e epistemológicos do Materialismo Histórico-Dialético, enfatizando a centralidade da atividade prática, da historicidade e das relações sociais na constituição do psiquismo. Em seguida, discutem-se as contribuições de Vigotski e Luria para a compreensão histórico-cultural do desenvolvimento humano e da organização funcional do cérebro, bem como a teoria da capacidade de ação (Handlungsfähigkeit) proposta por Holzkamp. A partir dessas convergências, argumenta-se que uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global requer a superação de perspectivas individualizantes, naturalizantes e universalizantes, reconhecendo o caráter histórico, cultural e político dos processos psicológicos. Conclui-se que a articulação entre Vigotski, Luria e Holzkamp oferece fundamentos teóricos relevantes para a construção de uma neuropsicologia comprometida com a compreensão das condições concretas de existência dos sujeitos, com a valorização da diversidade de trajetórias humanas e com a ampliação das possibilidades de participação, desenvolvimento e emancipação humana.

Palabras clave (FR):

Teorias neuropsicológicas
Abordagem histórico-cultural
Vigotsky
Luria
Métodos neuropsicológicos.

Resumen (EN)

A psicologia e a neuropsicologia contemporâneas permanecem fortemente influenciadas por modelos explicativos que tendem a naturalizar os fenômenos psicológicos e a universalizar parâmetros produzidos em contextos socioculturais específicos. Na América Latina e em outros contextos do Sul Global, essa tendência frequentemente contribui para a reprodução de formas de colonialidade epistemológica, invisibilizando as condições históricas, culturais e sociais que participam da constituição da subjetividade. Neste contexto, o presente artigo examina as aproximações teóricas entre a Psicologia Histórico-Cultural de Liev S. Vigotski e Aleksander R. Luria e a Psicologia Crítica de Klaus Holzkamp, tomando o Materialismo Histórico-Dialético como fundamento filosófico comum. O objetivo é discutir como o diálogo entre essas tradições pode contribuir para a formulação de uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global. Inicialmente, são analisados os pressupostos ontológicos e epistemológicos do Materialismo Histórico-Dialético, enfatizando a centralidade da atividade prática, da historicidade e das relações sociais na constituição do psiquismo humano. Em seguida, discutem-se as contribuições de Vigotski e Luria para a compreensão histórico-cultural do desenvolvimento humano e da organização funcional do cérebro, bem como a teoria da capacidade de ação (Handlungsfähigkeit) proposta por Holzkamp. A partir dessas convergências, argumenta-se que uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global requer a superação de perspectivas individualizantes, naturalizantes e universalizantes, reconhecendo o caráter histórico, cultural e político dos processos psicológicos. Conclui-se que a articulação entre Vigotski, Luria e Holzkamp oferece fundamentos teóricos relevantes para a construção de uma neuropsicologia comprometida com a compreensão das condições concretas de existência dos sujeitos, com a valorização da diversidade de trajetórias humanas e com a ampliação das possibilidades de participação, desenvolvimento e emancipação humana.

Palabras clave (EN):

Neuropsychological theories
Historical-cultural approach
Vygotsky
Luria
Neuropsychological methods.

Introdução

A psicologia constitui-se historicamente como um campo atravessado por tensões epistemológicas (teoria sobre a origem, validade e limites do conhecimento), ontológicas (estudo do ser, a realidade e a existência) e políticas relacionadas à definição de seu objeto, de seus métodos e de sua função social. Longe de representar uma ciência homogênea e cumulativa, sua trajetória foi marcada por disputas em torno das formas legítimas de compreender o humano, produzindo diferentes concepções de subjetividade, desenvolvimento e normalidade (Dafermos & Marvakis, 2006; Teo, 2015). Nesse processo, consolidaram-se perspectivas frequentemente orientadas por pressupostos naturalizantes e individualizantes, que tenderam a abstrair os sujeitos de suas condições históricas concretas de existência. Essa crítica alcança também as concepções relacionadas à mente e ao cérebro.

Tal problemática assume contornos particularmente relevantes no contexto latino-americano. A psicologia desenvolveu-se na região sob forte dependência de matrizes teóricas produzidas na Europa e nos Estados Unidos, muitas vezes universalizadas como modelos neutros de compreensão do comportamento humano. Como consequência, experiências históricas, culturais e sociais próprias da América Latina foram frequentemente subordinadas a categorias construídas em contextos distintos, produzindo processos de silenciamento epistemológico e reforçando formas de colonialidade do saber. Nesse cenário, torna-se necessário reconhecer que os fenômenos psicológicos não podem ser compreendidos como processos internos isolados, mas como formas historicamente produzidas de relação entre sujeitos, cultura e sociedade (Van der Veer & IJzendoorn, 1985).

As críticas à psicologia hegemônica têm evidenciado os limites das abordagens que reduzem a subjetividade a mecanismos universais abstratos ou a processos neurobiológicos descontextualizados. Conforme argumenta Teo (2021), a produção do conhecimento psicológico envolve inevitavelmente pressupostos filosóficos, éticos e políticos acerca da natureza humana e da própria função social da ciência. A ideia de neutralidade científica, nesse sentido, obscurece as relações entre conhecimento, poder e formas históricas de organização da vida social. Em vez de operar apenas como descrição técnica do comportamento, a psicologia participa da produção de normas, classificações e práticas de regulação dos sujeitos.

Essas tensões tornam-se especialmente visíveis no campo da neuropsicologia contemporânea. Embora os avanços das neurociências tenham ampliado significativamente o conhecimento sobre o funcionamento cerebral, permanecem predominantes modelos explicativos centrados na redução dos fenômenos psicológicos a mecanismos internos do cérebro, frequentemente desvinculados das suas determinações históricas, culturais e sociais (Toomela, 2014). Em muitos casos, desenvolvimento, cognição e sofrimento psíquico são interpretados a partir de parâmetros normativos produzidos em contextos socioculturais específicos e posteriormente universalizados, invisibilizando desigualdades estruturais, diferenças culturais e experiências históricas periféricas.

Na América Latina, tal problemática adquire implicações éticas e políticas incontornáveis. A importação acrítica de modelos psicológicos e neuropsicológicos produzidos no Norte Global tende a reproduzir formas de colonialidade epistemológica, transformando experiências locais em expressões de déficit, atraso ou desvio. A crítica à psicologia e à neuropsicologia hegemônicas não se restringe, portanto, a uma disputa metodológica (por exemplo, de tradução e validação de testes e baterias), mas envolve a necessidade de reconstruir os próprios fundamentos epistemológicos da compreensão do sujeito, do desenvolvimento humano e da relação entre cérebro, cultura e sociedade.

É nesse horizonte que emergem as contribuições da Psicologia Histórico-Cultural (PHC) e da Psicologia Crítica (PC). Ambas as tradições partem, de forma explícita, do fundamento comum do Materialismo Histórico-Dialético, compartilhando pressupostos ontológicos e epistemológicos que recolocam a atividade prática, o trabalho, a historicidade e a totalidade social no centro da análise da subjetividade.

Em Vigotski, o desenvolvimento psíquico é compreendido como processo de apropriação cultural mediado por signos, instrumentos e relações sociais. Em Luria os processos psicológicos superiores não podem ser compreendidos nem como expressões diretas da atividade cerebral, nem como fenômenos exclusivamente simbólicos ou culturais (Luria, 1966, 1980, 1981). Em Holzkamp (2016), a crítica à psicologia burguesa recoloca o sujeito não como objeto de adaptação, mas como agente cuja capacidade de ação depende do grau de controle que pode exercer sobre as condições objetivas de sua existência. Nesse sentido, a liberdade deixa de ser entendida como atributo abstrato da consciência individual e passa a ser concebida como uma conquista histórica, socialmente mediada e materialmente determinada.

Entretanto, embora o diálogo entre a Psicologia Histórico-Cultural e a Psicologia Crítica tenha sido frequentemente explorado a partir de suas convergências epistemológicas e político-emancipatórias, consideramos que uma dimensão ainda pouco explorada dessa aproximação diz respeito às contribuições da neuropsicologia histórico-cultural. Tal aspecto é particularmente relevante porque a obra de Luria oferece uma formulação concreta da tese segundo a qual os processos psicológicos humanos não podem ser compreendidos nem como expressões de uma natureza biológica isolada, nem como meros reflexos das estruturas sociais, mas como sistemas historicamente constituídos na atividade humana mediada pela cultura e pela linguagem. Nesse sentido, a atividade psicológica passa a ser compreendida como organização sistêmica, dinâmica e historicamente produzida, impossibilitando a separação entre subjetividade, cultura, atividade e bases neurofuncionais (Solovieva et al., 2019; Luria, 1971).

A articulação entre essas tradições permite compreender que a subjetividade é expressão concreta das contradições históricas pelo qual os sujeitos se constituem, isto é: estilos de vida, formas de interação e vínculo, tradições culturais do grupo, acesso a meios de produção do trabalho e às tecnologias, etc. Ao mesmo tempo, oferece elementos para uma crítica radical às formas e métodos hegemônicos de conhecimento psicológico e neuropsicológico, cuja pretensa neutralidade frequentemente encobre a sua inserção em relações de poder e em projetos sociais de adaptação. Em contraposição, uma neuropsicologia crítica do Sul Global exige a reconstrução dos próprios fundamentos metodológicos e normativos da avaliação e da intervenção, recolocando no centro da análise as condições materiais, culturais e históricas de existência dos sujeitos.

Nesse quadro, o presente artigo busca examinar os fundamentos marxistas compartilhados pela Psicologia Histórico-Cultural e pela Psicologia Crítica, articulando as suas contribuições para a formulação de uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global. A noção de Sul Global mobilizada neste trabalho não se refere exclusivamente a uma localização geográfica, mas a uma posição histórica e epistemológica marcada pelas experiências da colonização, da dependência econômica, das desigualdades estruturais e das múltiplas formas de subalternização que caracterizam grande parte da América Latina, da África e de outras regiões historicamente periféricas (Gomes, 2012; Santos, 2019; Pavón-Cuéllar, 2021). A partir dessa perspectiva, torna-se possível questionar a universalização de modelos psicológicos e neuropsicológicos produzidos em contextos específicos do Norte Global, reconhecendo que os processos psicológicos, as formas de sofrimento e as trajetórias de desenvolvimento humano são constituídos em condições históricas, sociais e culturais concretas. Se a subjetividade é historicamente produzida, como sustentam Vigotski, Luria e Holzkamp, então os processos de colonização, racialização, empobrecimento e exclusão não podem ser compreendidos como fatores externos ao desenvolvimento humano, mas como elementos que participam ativamente da constituição das experiências subjetivas e das possibilidades concretas de ação dos sujeitos.

Parte-se da hipótese de que essas tradições oferecem bases teóricas e metodológicas para superar os reducionismos individualistas, biologizantes e universalizantes ainda presentes em parte da psicologia e da neuropsicologia contemporâneas. Para isso, o texto discute inicialmente as aproximações epistemológicas, filosóficas e ontológicas entre a Psicologia Histórico-Cultural e a Psicologia Crítica. Em seguida, analisa as convergências entre Vigotski, Luria e Holzkamp na compreensão da constituição histórica da subjetividade e da organização dos processos psicológicos. Por fim, examina os desdobramentos ético-políticos dessas aproximações para a construção de uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global, comprometida com a historicidade, a diversidade sociocultural e a ampliação das possibilidades concretas de ação dos sujeitos.

Aproximações epistemológicas, filosóficas e ontológicas entre Vigotski e Holzkamp

As aproximações entre a Psicologia Histórico-Cultural (PHC) e a Psicologia Crítica (PC) encontram seus fundamentos em uma matriz filosófica comum: o Materialismo Histórico-Dialético formulado por Karl Marx e Friedrich Engels (Cruvinel, 2021; Nigrini et al., 2025). Mais do que um conjunto de conceitos ou um método de análise social, trata-se de uma concepção ontológica e epistemológica segundo a qual os seres humanos produzem a si mesmos e ao mundo por meio de sua atividade prática, historicamente situada e socialmente organizada (Marx & Engels, 2007; Marx, 2013).

Essa formulação representou uma ruptura com concepções filosóficas que buscavam explicar o conhecimento e a consciência a partir de princípios universais, abstratos ou transcendentais. Em contraste com perspectivas que concebiam a razão como fundamento autônomo do conhecimento, Marx e Engels defenderam que a produção das ideias, dos valores e das formas de consciência está inseparavelmente vinculada às condições materiais da vida social e às formas históricas de organização da atividade humana (Marx & Engels, 2007). O conhecimento deixa de ser compreendido como resultado de faculdades abstratas da mente para ser concebido como produto histórico das relações concretas estabelecidas pelos seres humanos em sua atividade prática.

Nesse sentido, o trabalho ocupa posição central. Para além de uma atividade econômica, trata-se de um processo necessário e universal por meio da qual os seres humanos transformam a natureza e, simultaneamente, transformam a si próprios. Como destacam Marx e Engels (2007), é na atividade prática e coletiva que o intercâmbio material torna-se linguagem, que enquanto consciência concreta, permite a transmissão e constituição dos conhecimentos e das instituições que organizam a vida social. A história humana deixa de ser compreendida como sucessão de ideias, impacto de grandes personalidades ou eventos isolados para ser concebida como processo de produção e reprodução das condições materiais da existência.

Essa concepção possui implicações decisivas para a psicologia. Em primeiro lugar, ela desloca a explicação dos fenômenos psicológicos das propriedades internas dos indivíduos, ou seja, da biologia do organismo, para os processos históricos e sociais que constituem a subjetividade. Em segundo lugar, rompe com as interpretações naturalizantes que tratam a consciência como realidade dada pela natureza, universal e independente das condições concretas de vida. Finalmente, permite compreender os processos psicológicos como formas historicamente produzidas de organização da atividade humana. Assim, a consciência só existe em sujeitos vivos que têm necessidades, interesses, motivos e condições materiais de realização, de modo que o conhecimento científico sobre a consciência não pode jamais ser isolado do sistema de produção que possibilita sua existência.

Nesse horizonte, cabe destacar a abordagem de Aleksei Leontiev sobre a categoria de atividade no desenvolvimento do psiquismo e da personalidade, que teve profunda influência nos trabalhos de Holzkhamp, estando também em constante diálogo com Vigótski e Luria. Em Atividade, Consciência e Personalidade, Leontiev propõe que a atividade é a categoria central para compreender a constituição da consciência, da personalidade e da relação do ser humano com a realidade. A atividade não é simplesmente comportamento ou ação isolada; ela é o processo pelo qual o sujeito se relaciona com o mundo objetivo, transformando-o e sendo transformado por ele. Assim, o sujeito entra em contato com a realidade por meio da atividade prática. Ao agir sobre os objetos do mundo, encontra suas propriedades objetivas, suas resistências e possibilidades. Por isso, a realidade externa não é apenas um cenário que influencia a pessoa. Ela é apropriada e significada por meio da atividade humana. A consciência e o psiquismo surgem precisamente nesse movimento mediado entre sujeito e objeto (Leontiev, 2021).

Esses pressupostos ofereceram a base comum para o desenvolvimento da Psicologia Histórico-Cultural e da Psicologia Crítica. Em Vigotski, eles fundamentam a compreensão das funções psicológicas superiores como processos historicamente constituídos por meio da atividade social mediada pela linguagem, pelos signos e pelos instrumentos culturais (Vigotski, 1999). Em Holzkamp, sustentam a crítica ao individualismo metodológico e a formulação da capacidade de ação (Handlungsfähigkeit) como expressão das possibilidades concretas de participação dos sujeitos na vida social (Holzkamp, 2018). Em ambos os casos, a subjetividade deixa de ser concebida como realidade interna isolada para ser compreendida como forma historicamente situada de relação com o mundo.

Nesse cenário, a crítica descolonial não implica rejeitar as tradições teóricas europeias, mas reinterpretá-las a partir das condições concretas de existência dos povos historicamente subalternizados. Como demonstrou Fanon (2020), sofrimento, alienação e fragmentação subjetiva não constituem características inerentes aos sujeitos colonizados, mas efeitos históricos produzidos pelas relações de dominação. A aproximação entre a Psicologia Histórico-Cultural e a Psicologia Crítica oferece importantes recursos para enfrentar esse desafio, ao compartilhar uma compreensão histórica, relacional e dialética da subjetividade e ao recusar explicações exclusivamente individualizantes, biologizantes e universalizantes dos fenômenos psicológicos.

Complementarmente, as contribuições de Luria ocupam posição estratégica. Ao desenvolver a Neuropsicologia Histórico-Cultural, Luria demonstrou que os princípios formulados por Vigotski possuem implicações diretas para a compreensão da organização funcional dos processos psicológicos, evidenciando que cérebro, cultura, linguagem e atividade constituem uma unidade dinâmica historicamente produzida (Luria, 1966, 1971, 1980, 1981). Sua obra estabelece uma ponte fundamental entre os pressupostos epistemológicos compartilhados por Vigotski e Holzkamp e a compreensão concreta do funcionamento e da estruturação dos sistemas neuropsicológicos, tema que será aprofundado na seção seguinte.

Em síntese, as aproximações entre a Psicologia Histórico-Cultural e a Psicologia Crítica repousam sobre uma compreensão comum da historicidade da vida humana, da centralidade da atividade e do caráter socialmente constituído da subjetividade. Essas convergências não apenas permitem superar dualismos clássicos da psicologia moderna, mas também oferecem fundamentos para uma compreensão crítica dos processos psicológicos comprometida com a análise das condições concretas de vida e com a ampliação das possibilidades de ação e emancipação humana.

Da gênese social à organização dos processos psicológicos: aproximações entre Vigotski, Luria e Holzkamp

Uma das contribuições mais originais da tradição histórico-cultural para a psicologia consiste na superação das dicotomias entre indivíduo e sociedade, mente e cérebro, subjetividade e materialidade. Em oposição às perspectivas que concebem os processos psicológicos como expressões de propriedades naturais, universais ou intrínsecas ao indivíduo, Vigotski propõe compreendê-los como produtos da história humana, constituídos no interior das relações sociais e das formas culturalmente organizadas de atividade (Vigotski, 2021).

Nessa perspectiva, as funções psicológicas superiores não emergem como desdobramentos lineares da maturação biológica, mas como formas qualitativamente novas de organização da atividade humana e como sistemas funcionais complexos. Sua gênese é social antes de ser individual ou internalizada. Conforme preconiza a Lei Geral do Desenvolvimento, toda função psicológica superior aparece inicialmente no plano das relações entre as pessoas para, posteriormente, transformar-se numa forma de funcionamento intrapsicológico (Vigotski, 2021). O desenvolvimento psicológico não consiste, portanto, na simples atualização de potencialidades previamente existentes, mas em um processo de transformação qualitativa mediado pela linguagem, pelos signos, pelos instrumentos culturais e pelas formas historicamente produzidas de atividade humana que possibilitam o autodomínio do comportamento.

Os princípios da neuropsicologia histórico-cultural permitem aprofundar essa discussão ao demonstrar que a historicidade não se restringe aos conteúdos da consciência, mas alcança a própria organização funcional dos processos psicológicos. Em seu texto Psicologia como Ciência Histórica, Luria (1971) argumenta que um dos equívocos fundamentais da psicologia tradicional consistiu em assumir que os processos mentais possuíam estrutura invariável ao longo da história. Em contraposição, o autor sustenta que a própria estrutura da consciência se transforma historicamente, à medida que os indivíduos se apropriam dos sistemas simbólicos, das práticas culturais e das formas de atividade produzidas socialmente.

Essa formulação possui implicações decisivas para a neuropsicologia histórico-cultural. Conforme argumentam Solovieva et al. (2019), os processos psicológicos superiores devem ser compreendidos como sistemas funcionais complexos, dinâmicos e hierarquicamente organizados, cuja constituição depende das condições históricas e culturais de desenvolvimento (Luria, 1966; 1980; 1980). Nessa perspectiva, não existem funções psicológicas rigidamente localizadas em estruturas encefálicas específicas. O funcionamento psicológico resulta da articulação dinâmica entre diferentes componentes neurofuncionais, organizados em sistemas que se transformam ao longo da ontogênese e da experiência social (Luria, 1980; Solovieva et al., 2019).

A crítica ao localizacionismo estrito realizada por Luria da recusa a circunscrição das funções psicológicas humanas em regiões específicas e estáticos da estrutura cerebral. As funções psicológicas humanas não apenas mudam sua localização cerebral ao longo do desenvolvimento, como também apresentam sempre uma organização sistêmica, que precisa recorrer necessariamente aos componentes exteriores ao sistema nervoso central, produtos da sociabilidade. Sendo assim, Luria desloca o foco explicativo do interior do indivíduo para os processos de atividade socialmente mediados, afirmando que a origem do desenvolvimento humano deve ser buscada nas relações entre as pessoas, na linguagem, nos instrumentos culturais e nas práticas coletivas de vida (Luria 1971; 1980).

Esta crítica de Luria teve como base teoria o princípio da extracorticalidade das funções psicológicas superiores formulado por Vigotski. Segundo essa concepção, os processos psicológicos superiores não encontram suas origens exclusivamente nos limites biológicos do organismo, mas fora dele, ou seja, constituem sistemas cuja organização depende da incorporação de instrumentos, signos e formas de mediação cultural (Vigotski, 2024; Luria, 1971). Como afirmam Solovieva et al. (2019), compreender o pensamento humano exige ultrapassar os limites do cérebro isolado e situá-lo no espaço das relações sociais e da atividade compartilhada.

A atividade coletiva assume, assim, papel central na articulação entre cultura e subjetividade. Conforme destacam Solovieva et al. (2019), é por meio da atividade que os processos culturais se convertem em formas de organização psicológica, possibilitando a constituição dos sistemas funcionais que sustentam a vida psíquica. Essa formulação aproxima-se significativamente da perspectiva de Holzkamp, para quem a atividade humana não pode ser compreendida fora das condições concretas de existência, das contradições sociais e das possibilidades históricas de participação dos sujeitos (Holzkamp, 2018; Teo, 2015; 2021).

Se por um lado, a Psicologia Crítica enfatiza como os sujeitos podem constroem possibilidades de ação em contextos sociais concretos, por outro, a neuropsicologia histórico-cultural enfatiza que os sistemas psicológicos que constituem a personalidade e possibilitam o autodomínio da conduta são produtos ações, mediações e contextos sociais concretos que o sujeito participa. Portanto, tanto a capacidade de ação (Handlungsfähigkeit) como o autodomínio do comportamento, são sistemas complexos e dinâmicos que lidam com determinação das condições de vida do sujeito, sem qualquer isolamento do indivíduo em relação à sua cultura e condições concretas de vida, tanto internas quanto externas. Ambos tratam da expressão histórico-concreta da liberdade humana.

Dessa forma, o diálogo entre Vigotski, Luria e Holzkamp opera um afastamento, tanto das interpretações individualizantes quanto das explicações biologizantes dos fenômenos psicológicos, oferecendo bases para uma compreensão crítica do desenvolvimento humano comprometida com a análise das condições concretas que ampliam ou restringem as possibilidades de ação dos sujeitos. Essa articulação assume especial relevância quando considerada a partir dos desafios enfrentados pela neuropsicologia em contextos marcados por desigualdades sociais, processos de colonialidade e profundas assimetrias na produção do conhecimento científico. Historicamente, a neuropsicologia dominante foi fortemente influenciada por modelos universalizantes de desenvolvimento, por concepções individualizadas do funcionamento cognitivo e pela utilização de parâmetros normativos nos testes produzidos majoritariamente em países do Norte Global. Como consequência, fatores relacionados às condições concretas de vida, aos processos históricos de exclusão, às desigualdades educacionais e às especificidades culturais frequentemente foram tratados como variáveis secundárias ou confundidos com déficits inerentes aos sujeitos avaliados.

Nesse contexto, o diálogo entre Vigotski, Luria e Holzkamp oferece fundamentos particularmente fecundos para a construção de uma neuropsicologia crítica do Sul Global. Ao compreender os processos psicológicos como histórica e socialmente constituídos, os sistemas funcionais como produtos da atividade culturalmente mediada e a subjetividade como expressão das condições concretas de participação dos sujeitos em seu mundo social, essa perspectiva permite deslocar o foco explicativo dos indivíduos para as relações sociais que configuram suas possibilidades de desenvolvimento. Tal deslocamento contribui para enfrentar criticamente tendências reducionistas, biologizantes e descontextualizadas ainda presentes em parte da neuropsicologia contemporânea, favorecendo abordagens mais sensíveis às realidades socioculturais, às desigualdades estruturais e às formas diversas de produção da experiência humana que caracterizam os contextos latino-americanos e outros territórios do Sul Global.

Desdobramentos ético-políticos: por uma neuropsicologia crítica do Sul Global

Mais do que uma teoria sobre a organização cerebral, a neuropsicologia histórico-cultural oferece uma concepção da atividade psicológica na qual cérebro, cultura, linguagem e história constituem uma unidade dinâmica. Essa formulação permite estabelecer uma ponte entre os fundamentos histórico-culturais de Vigotski e a crítica da subjetividade desenvolvida por Holzkamp, evidenciando que as possibilidades de ação humana são inseparáveis das condições sociais nas quais os sujeitos se desenvolvem.

O diálogo entre Vigotski, Luria e Holzkamp permite compreender que a crítica ao individualismo, ao biologicismo e à colonialidade não constitui um complemento externo à neuropsicologia, mas uma exigência decorrente da própria compreensão histórico-cultural dos processos psicológicos. Nesse sentido, uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global não representa apenas uma adaptação regional da neuropsicologia contemporânea, mas uma reconfiguração dos seus fundamentos epistemológicos, metodológicos e ético-políticos, comprometida com a compreensão da subjetividade na sua historicidade e com a ampliação das possibilidades concretas de ação e emancipação humana.

No bojo desta reflexão, as convergências epistemológicas entre Vigotski, Luria e Holzkamp ultrapassam o plano estritamente teórico. Ao compreenderem a subjetividade como fenômeno histórica e socialmente constituído, esses autores fornecem fundamentos para uma crítica das formas contemporâneas de produção do conhecimento psicológico e neuropsicológico. Tal crítica adquire especial relevância em um contexto marcado pela expansão de racionalidades neoliberais, pela medicalização crescente da vida e pela tendência de individualização e patologização de problemas produzidos por relações sociais mais amplas.

Nessa perspectiva, a neuropsicologia não pode ser concebida como campo neutro de descrição técnica do funcionamento cognitivo e emocional. Os próprios conceitos utilizados para definir desempenho, competência, inteligência, desenvolvimento ou normalidade são produzidos em contextos históricos específicos e carregam pressupostos filosóficos, culturais e políticos. Como argumenta Teo (2022), toda produção de conhecimento psicológico envolve escolhas acerca do que deve ser considerado humano, saudável, desejável ou funcional. A neutralidade científica, nesse sentido, tende a ocultar as relações entre conhecimento, poder e regulação social.

Essa problemática torna-se particularmente evidente quando observamos a circulação global de modelos diagnósticos, instrumentos de avaliação e parâmetros normativos produzidos predominantemente no Norte Global. Grande parte dos testes utilizados na prática neuropsicológica foi construída e validada em contextos socioculturais específicos, sendo posteriormente universalizada como referência para populações historicamente distintas. O resultado é a transformação de diferenças culturais, educacionais e sociais em indicadores de déficit, atraso ou desvio, contribuindo para processos de patologização e exclusão (Bordes-Edgar et al., 2025).

A crítica aqui proposta não implica rejeição da avaliação neuropsicológica ou do conhecimento produzido pelas neurociências. Ao contrário, trata-se de reivindicar formas mais rigorosas de investigação, capazes de reconhecer que o desenvolvimento humano ocorre em condições históricas concretas. A contribuição de Luria permanece particularmente atual nesse aspecto. Sua concepção dos sistemas funcionais complexos rompe com a ideia de funções mentais fixas e de centros cerebrais unitários, permitindo compreender que o funcionamento psicológico resulta da articulação dinâmica entre cérebro, atividade, linguagem, cultura e história de vida (Luria, 1966).

Sob essa perspectiva, o objetivo da investigação neuropsicológica desloca-se da simples classificação de indivíduos para a reconstrução das condições que organizam seu desenvolvimento e sua participação social. O neuropsicólogo deixa de ocupar exclusivamente a posição de aplicador de testes e passa a atuar como investigador das mediações que produzem determinadas formas de funcionamento, sofrimento e aprendizagem. A análise diagnóstica torna-se parte de um processo mais amplo de compreensão das condições concretas de existência dos sujeitos (Fujii, 2023).

É nesse ponto que as contribuições de Holzkamp adquirem especial relevância. Seu conceito de Handlungsfähigkeit (capacidade de ação) permite deslocar a análise do déficit para as possibilidades concretas de participação humana. Em vez de perguntar apenas quais funções cognitivas estão preservadas ou comprometidas, torna-se necessário compreender em que medida determinadas condições sociais ampliam ou restringem as possibilidades de ação dos sujeitos (Batur et al., 2019; Holzkamp, 2016; 2018).

Tal formulação possui implicações particularmente importantes para os contextos latino-americanos. A história da região é marcada por profundas desigualdades sociais, colonialidade persistente, racismo estrutural e múltiplas formas de exclusão que atravessam concretamente os processos de desenvolvimento humano. Ignorar essas determinações significa correr o risco de transformar efeitos sociais em características individuais, naturalizando condições que são histórica e politicamente produzidas.

Nesse sentido, as contribuições de Frantz Fanon (2020), Martín-Baró (1996) e das perspectivas descoloniais contemporâneas ampliam o horizonte inaugurado pela Psicologia Histórico-Cultural e pela Psicologia Crítica. A subjetividade passa a ser compreendida não apenas como produto da atividade social, mas também das relações de poder, dominação e resistência que atravessam a história dos povos colonizados. Sofrimento, exclusão e silenciamento epistemológico deixam de aparecer como experiências individuais isoladas e passam a ser reconhecidos como expressões de processos históricos mais amplos.

Uma neuropsicologia crítica do Sul Global exige, portanto, mais do que adaptações culturais de instrumentos ou ampliação de bancos normativos. Exige uma revisão dos próprios pressupostos que orientam a produção do conhecimento neuropsicológico. Isso implica reconhecer que os sujeitos avaliados não são apenas portadores de funções cognitivas, mas participantes de histórias, culturas, territórios e relações sociais concretas. Implica, igualmente, compreender que o objetivo da avaliação não deve restringir-se à classificação ou adaptação dos indivíduos, mas contribuir para a ampliação de suas possibilidades de participação, autonomia e desenvolvimento (Bordes Edgar et al., 2025).

A articulação entre Vigotski, Luria e Holzkamp permite conceber uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global comprometida com a historicidade dos processos psicológicos, com a compreensão sistêmica das relações entre cérebro, cultura e atividade, e com a ampliação das possibilidades concretas de ação dos sujeitos. Mais do que descrever desempenhos cognitivos ou identificar déficits individuais, essa perspectiva busca compreender como desigualdades sociais, colonialidade, racismo estrutural, exclusão educacional e outras formas de opressão participam da constituição das trajetórias de desenvolvimento humano. Nesse sentido, a neuropsicologia deixa de operar apenas como tecnologia de classificação e adaptação para tornar-se instrumento de compreensão crítica da subjetividade e de promoção da justiça cognitiva, social e epistemológica.

Considerações finais

Celebrar os 130 anos do nascimento de Lev S. Vigotski não significa apenas revisitar uma das mais influentes tradições da psicologia do século XX. Significa, sobretudo, interrogar criticamente os modos pelos quais seguimos produzindo conhecimento sobre o desenvolvimento humano em contextos marcados por desigualdades sociais, colonialidade e exclusão. Em uma América Latina atravessada por profundas contradições históricas, a atualidade do pensamento vigotskiano reside precisamente em sua recusa das explicações abstratas e naturalizantes do psiquismo, recolocando a historicidade, a cultura e a atividade humana no centro da compreensão da subjetividade.

Ao longo deste artigo, procuramos demonstrar que a Psicologia Histórico-Cultural e a Psicologia Crítica compartilham fundamentos filosóficos comuns no Materialismo Histórico-Dialético e convergem na crítica às formas individualizantes e naturalizantes de compreensão do ser humano. Embora produzidas em contextos distintos, ambas as tradições compreendem a subjetividade como processo histórico, socialmente mediado e inseparável das condições concretas de existência dos sujeitos. A aproximação entre Vigotski, Luria e Holzkamp permitiu evidenciar que desenvolvimento, cognição, aprendizagem e sofrimento psíquico não podem ser compreendidos fora das relações sociais que os produzem. Em diferentes níveis de análise, esses autores deslocam a atenção das características abstratas do indivíduo para os processos históricos de constituição da subjetividade, enfatizando o papel da atividade, da mediação cultural e das possibilidades concretas de ação humana.

A partir das contribuições de Luria, essa perspectiva implica compreender a práxis neuropsicológica como processo de reconstrução das mediações que organizam o funcionamento psicológico. A partir de Holzkamp, implica deslocar o foco da adaptação para a ampliação da capacidade de ação dos sujeitos sobre suas próprias condições de existência. E a partir de Vigotski, implica reconhecer que o desenvolvimento humano é sempre um processo cultural, histórico e socialmente mediado.

Mais do que uma proposta teórica, trata-se de um compromisso ético com formas de produção de conhecimento capazes de contribuir para a transformação das condições que produzem sofrimento, exclusão e desigualdade. Nesse horizonte, a neuropsicologia deixa de ser apenas um campo voltado para a descrição do funcionamento cognitivo e passa a integrar um projeto mais amplo de compreensão crítica da vida humana.

As aproximações entre Vigotski, Luria e Holzkamp permitem compreender que a crítica ao individualismo metodológico, ao biologicismo e à colonialidade não constitui um complemento externo à neuropsicologia, mas uma exigência decorrente da própria compreensão histórico-cultural dos processos psicológicos. Se o desenvolvimento humano é produzido na atividade social mediada, se os sistemas funcionais são historicamente constituídos e se as possibilidades de ação dependem das condições concretas de vida, então qualquer compreensão da cognição que ignore essas determinações permanece necessariamente parcial.

Nessa direção, uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global não representa apenas a adaptação regional de teorias produzidas em outros contextos, mas uma reconfiguração de seus próprios fundamentos epistemológicos, metodológicos e ético-políticos. Trata-se de uma perspectiva comprometida com a historicidade da subjetividade, com a diversidade das formas de vida humanas e com a ampliação das possibilidades concretas de ação dos sujeitos. Em um cenário marcado pela persistência da colonialidade, das desigualdades sociais e da patologização crescente da existência, a tarefa da neuropsicologia não pode limitar-se à classificação de déficits ou à adaptação dos indivíduos às condições vigentes. Seu desafio consiste em contribuir para a compreensão crítica das condições que produzem sofrimento, exclusão e restrição das possibilidades humanas, colocando o conhecimento científico a serviço da emancipação, da justiça cognitiva e da transformação social. (Vigotski, 1931/2021; Luria, 1980; Holzkamp, 2016, 2018; Martín-Baró, 1996; Teo, 2022).

As reflexões desenvolvidas ao longo deste artigo também apontam para importantes desafios metodológicos para a pesquisa e a prática neuropsicológica. A compreensão dos processos psicológicos como fenômenos histórica e socialmente constituídos exige o desenvolvimento de abordagens capazes de articular diferentes níveis de análise, integrando dimensões biológicas, culturais, educacionais, sociais e políticas. Isso implica ultrapassar modelos exclusivamente normativos de avaliação, bem como interpretações que tratam desempenhos cognitivos como expressões diretas e universais do funcionamento cerebral. Em seu lugar, torna-se necessário fortalecer estratégias de investigação sensíveis às trajetórias concretas de vida dos sujeitos, às condições de escolarização, aos contextos socioculturais e às formas específicas de participação social que configuram os processos de desenvolvimento humano.

Nesse sentido, a construção de uma Neuropsicologia Crítica do Sul Global constitui não apenas uma tarefa teórica, mas também um projeto científico, ético e político para os próximos anos. Tal projeto demanda a ampliação da produção de conhecimento em contextos historicamente sub-representados, o fortalecimento de pesquisas multicêntricas latino-americanas, a revisão crítica de parâmetros normativos universalizados e o desenvolvimento de modelos de avaliação e intervenção comprometidos com a diversidade humana e a justiça cognitiva. Mais do que adaptar instrumentos ou incorporar variáveis contextuais às práticas existentes, trata-se de aprofundar uma reconfiguração dos próprios fundamentos da neuropsicologia, tomando como ponto de partida a historicidade da subjetividade, a inseparabilidade entre cérebro, cultura e atividade e a centralidade das condições concretas de vida na constituição dos processos psicológicos. Nessa direção, o diálogo entre Vigotski, Luria e Holzkamp não se encerra como exercício de aproximação teórica, mas se apresenta como horizonte promissor para o desenvolvimento de uma neuropsicologia comprometida com a compreensão crítica da experiência humana e com a transformação das condições que limitam as possibilidades de ação, participação e emancipação dos sujeitos.

Financiamento

Os autores declaram que não foi recebido financiamento para a pesquisa, autoria e/ou publicação deste artigo.

Contribuição de autoria

IH: Conceituação, Redação – revisão e edição, Redação – rascunho inicial. LA: Conceituação. WLSI: Conceituação. HSH: Conceituação. HGR: Conceituação.

Todos os autores leram e aprovaram a versão final do manuscrito.

Conflitos de interesse

Os autores declaram que não há nenhum conflito de interesse comercial ou financeiro relacionado a esta pesquisa.

Uso de ferramentas de inteligência artificial

Foi utilizada ferramenta de IA para revisão das normas bibliográficas e revisão do texto final, sendo o produto revisado pelos autores.

Referencias

  1. Anokhin PK. Biology and neurophysiology of the conditioned reflex and its role in adaptive behavior. Pergamon Press; 1974.
  2. Batur S, Kessi S, Marvakis A, Painter D, Schraube E, Bowler ES, et al. Kritische Psychologie: Refining theory, methodology and empirical research. Annual Review of Critical Psychology. 2019;16:3-9.
  3. Bordes Edgar V, MacDonald B, Thames AD, McClintock SM. The time has come: discussing the clinical neuropsychology provider’s role in cultural respect and inclusion. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology. 2025;47(6):531-548. Disponible en: : https://doi.org/10.1080/13803395.2025.2455126.
  4. Cruvinel LMP. Klaus Holzkamp (1927–1995) e a Psicologia Crítica Alemã: introdução à proposta de uma ciência marxista do sujeito [Master's thesis]. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2021.
  5. Dafermos M, Marvakis A. Critiques in psychology – Critical psychology. Annual Review of Critical Psychology. 2006;5:1-20.
  6. Fanon F. Pele negra, máscaras brancas. Ubu Editora; 2020.
  7. Fujii DEM. Incorporating intersectionality in neuropsychology: Moving the discipline forward. Archives of Clinical Neuropsychology. 2023;38(1):154-167.
  8. Gomes FM. As Epistemologias do Sul de Boaventura de Sousa Santos: Por Um Resgate do Sul Global. Páginas de Filosofia. 2012;4(2):39-54. Disponible en: : https://doi.org/10.15603/2175-7747/pf.v4n2p39-54.
  9. Holzkamp K. Ciência marxista do sujeito: Uma introdução à psicologia crítica. Coletivo Veredas; 2016.
  10. Holzkamp K. Ciência marxista do sujeito: Uma introdução à psicologia crítica. Coletivo Veredas; 2018.
  11. Horkheimer M. Teoria tradicional e teoria crítica (Original work published 1937). En: Horkheimer M, Adorno TW, Benjamin W, Habermas J, editores. Textos escolhidos. Abril Cultural; 1975. p 125-162.
  12. Leontiev AN. Atividade. Consciência. Personalidade. Mireveja; 2021.
  13. Luria AR. Human brain and psychological processes. Harper & Row; 1966.
  14. Luria AR. Psikhologiya kak istoricheskaya nauka: K voprosu ob istoricheskoi prirode psikhologicheskikh protsessov. En: Porshnev BF, Antsyferova LI, editores. Istoriya i psikhologiya. Nauka; 1971. p .
  15. Luria AR. Higher cortical functions in man. 2nd ed. Basic Books; 1980.
  16. Luria AR. Fundamentos de neuropsicologia. São Paulo: EDUSP; 1981.
  17. Martin-Baró I. O papel do psicólogo. Estudos de Psicologia (Natal). 1996;2(1):7-27.
  18. Marx K. O capital: Livro I. Boitempo; 2013.
  19. Marx K, Engels F. A ideologia alemã. Boitempo; 2007.
  20. Nigrini L, Amici F, Llorente M. A comparison between the methodology of the mainstream in (neuro-)psychology, Holzkamp's and Vygotsky's approach. Integrative Psychological and Behavioral Science. 2025;59(7):1-23.
  21. Pavón-Cuéllar D. Psicología crítica: Definición, antecedentes, historia y actualidad. Editorial Itaca; 2019.
  22. Santos B de S. O fim do império cognitivo: A afirmação das epistemologias do Sul. Autêntica; 2019.
  23. Solovieva Y, Quintanar Rojas L, Akhutina T, Hazin I. Historical-cultural neuropsychology: A systemic and integral approach of psychological functions and their cerebral bases. Estudos de Psicologia (Natal). 2019;24(1):65-75.
  24. Teo T. Critical psychology: A geography of intellectual engagement and resistance. American Psychologist. 2015;70(3):243-254.
  25. Teo T. History and systems of critical psychology. En: Oxford Research Encyclopedia of Psychology. 2021. p . Disponible en: : https://doi.org/.
  26. Teo T. What is a white epistemology in psychological science? A critical race-theoretical analysis. Frontiers in Psychology. 2022;13:861584.
  27. Toomela A. Vygotskian cultural-historical and sociocultural approaches in neuropsychology. En: Yasnitsky A, Van der Veer R, Ferrari M, editores. The Cambridge handbook of cultural-historical psychology. Cambridge: Cambridge University Press; 2014. p 523-549.
  28. Van der Veer R, Van IJzendoorn MH. Vygotsky's theory of the higher psychological processes: Some criticisms. Human Development. 1985;28(1):1-9. Disponible en: : https://doi.org/1.
  29. Vigotski LS. Sobre os sistemas psicológicos. En: Teoria e método em psicologia. Martins Fontes; 1999. p 103-136.
  30. Vigotski LS. História do desenvolvimento das funções mentais superiores. 1st ed. São Paulo: Martins Fontes; 2021.
  31. Vigotski LS. O essencial de Vigotski. Vozes; 2024.

Diálogos entre Vigotski, Luria y Holzkamp para una neuropsicología crítica del Sur Global

Resumen

La psicología y la neuropsicología contemporáneas siguen estando fuertemente influidas por modelos explicativos que tienden a naturalizar los fenómenos psicológicos y a universalizar parámetros producidos en contextos socioculturales específicos. En América Latina y en otros contextos del Sur Global, esta tendencia contribuye con frecuencia a la reproducción de formas de colonialidad epistemológica, invisibilizando las condiciones históricas, culturales y sociales que participan en la constitución de la subjetividad. En este contexto, el presente artículo examina las aproximaciones teóricas entre la Psicología Histórico-Cultural de Lev S. Vigotski y Aleksandr R. Luria y la Psicología Crítica de Klaus Holzkamp, tomando el Materialismo Histórico-Dialéctico como fundamento filosófico común. El objetivo es discutir de qué manera el diálogo entre estas tradiciones puede contribuir a la formulación de una Neuropsicología Crítica del Sur Global. Inicialmente, se analizan los supuestos ontológicos y epistemológicos del Materialismo Histórico-Dialéctico, enfatizando la centralidad de la actividad práctica, la historicidad y las relaciones sociales en la constitución del psiquismo humano. A continuación, se discuten las contribuciones de Vigotski y Luria a la comprensión histórico-cultural del desarrollo humano y de la organización funcional del cerebro, así como la teoría de la capacidad de acción (Handlungsfähigkeit) propuesta por Holzkamp. A partir de estas convergencias, se sostiene que una Neuropsicología Crítica del Sur Global requiere superar las perspectivas individualizantes, naturalizantes y universalizantes, reconociendo el carácter histórico, cultural y político de los procesos psicológicos. Se concluye que la articulación entre Vigotski, Luria y Holzkamp ofrece fundamentos teóricos relevantes para la construcción de una neuropsicología comprometida con la comprensión de las condiciones concretas de existencia de los sujetos, con la valoración de la diversidad de las trayectorias humanas y con la ampliación de las posibilidades de participación, desarrollo y emancipación humana.

Palabras clave: Neuropsicología crítica; Sur Global; Psicología histórico-cultural; Psicología crítica; Vigotski.

Dialogues entre Vygotski, Luria et Holzkamp pour une neuropsychologie du Sud global

Résumé

La psychologie et la neuropsychologie contemporaines restent fortement influencées par des modèles explicatifs qui tendent à naturaliser les phénomènes psychologiques et à universaliser des paramètres produits dans des contextes socioculturels spécifiques. En Amérique latine et dans d’autres contextes du Sud global, cette tendance contribue fréquemment à la reproduction de formes de colonialité épistémologique, en rendant invisibles les conditions historiques, culturelles et sociales qui participent à la constitution de la subjectivité. Dans ce contexte, le présent article examine les rapprochements théoriques entre la psychologie historico-culturelle de Lev S. Vygotski et Aleksandr R. Luria et la psychologie critique de Klaus Holzkamp, en prenant le matérialisme historico-dialectique comme fondement philosophique commun. L’objectif est d’examiner comment le dialogue entre ces traditions peut contribuer à la formulation d’une neuropsychologie critique du Sud global. Dans un premier temps, les présupposés ontologiques et épistémologiques du matérialisme historico-dialectique sont analysés, en soulignant la place centrale de l’activité pratique, de l’historicité et des relations sociales dans la constitution du psychisme humain. Ensuite, les contributions de Vygotski et de Luria à la compréhension historico-culturelle du développement humain et de l’organisation fonctionnelle du cerveau sont examinées, ainsi que la théorie de la capacité d’action (Handlungsfähigkeit) proposée par Holzkamp. À partir de ces convergences, il est soutenu qu’une neuropsychologie critique du Sud global exige de dépasser les perspectives individualisantes, naturalisantes et universalisantes, en reconnaissant le caractère historique, culturel et politique des processus psychologiques. Il est conclu que l’articulation entre Vygotski, Luria et Holzkamp offre des fondements théoriques pertinents pour la construction d’une neuropsychologie engagée dans la compréhension des conditions concrètes d’existence des sujets, dans la valorisation de la diversité des trajectoires humaines et dans l’élargissement des possibilités de participation, de développement et d’émancipation humaine.

Mots-clés : Neuropsychologie critique ; Sud global ; Psychologie historico-culturelle ; Psychologie critique ; Vygotski.

Explorar

Artículos


Volúmenes


Sobre la revista


Más leídos

Perfil e autopercepção de alterações neuropsicológicas em pacientes neurológicos de um hospital geral

Neuropsicología Latinoamericana


A informatização dos instrumentos neuropsicológicos no Brasil: uma revisão sistemática

Neuropsicología Latinoamericana


Aportaciones de Vigotsky y la neuropsicología histórico-cultural a la educación

Neuropsicología Latinoamericana


Aspectos cognitivos pós-cirúrgicos na lesão encefálica adquirida: viabilidade da Bateria Breve de Rastreio Cognitivo

Neuropsicología Latinoamericana


Depressão, ansiedade e desempenho cognitivo em adultos mais velhos: estudo comparativo entre contextos

Neuropsicología Latinoamericana